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Claudia Abreu/Agência Meios
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A região do Salento, na Itália: legado árabe

No salto da bota, a presença árabe

Claudia Abreu

ANBA

[02/08/2010]

Tramontano ou scirocco (se lê chiroco). Um vem do norte e é fresco, o outro vem do sul, e é quente. Os dois são os ventos que, alternados, chacoalham o Salento, região ao sul da província da Puglia, e, provavelmente, levaram àquela parte ensolarada e luminosa da Itália navegantes de todo o mundo antigo. Gregos, normandos, turcos otomanos, espanhóis da dinastia de Aragão, árabes e, claro, os romanos lutaram e dominaram a Puglia por períodos diversos.

Estratégica geograficamente, localizada entre os mares Adriático e Jônico, este último um braço do Mar Mediterrâneo, a região tem o ponto mais oriental da Itália, o porto da cidade de Otranto, e o mais ao sul do continente, Santa Maria de Leuca, ou Finibus Terrae, em latim. O resultado do rico passado está impresso na cultura salentina. Dos árabes, a herança na região está no rosto dos moradores, de cabelo escuros e morenos, mas é percebida, principalmente, na arquitetura e na culinária.

O gótico árabe, os tradicionais trulli e o estilo mourisco mostram a forte presença árabe no Salento, dominada por construções em pedra leccese, de cor amarela. O gótico está, por exemplo, na catedral de Otranto, no centro da cidade, construída em 1088.

Destruída pelo Império Turco Otomano em 1480, durante a invasão das terras salentinas, a igreja começou a ser reconstruída no ano seguinte, em 1481, quando a cidade voltou novamente ao domínio da dinastia Aragão. A catedral abriga os restos mortais dos mártires da guerra otrantina (ver matéria abaixo) e uma inusitada mistura de estilos: gótico árabe, renascentista e barroco. No chão, um grande mosaico com, entre outros desenhos, as imagens de todos os signos do zodíaco.

Da montanha à cidade

Casas de pedra, inclusive o teto, em formato circular que lembram iglus, e sem divisão interna. São os trulli espalhados por toda a Puglia. A origem é o Oriente Médio, de tribos pré-históricas que habitaram a região por conta da proximidade geográfica. Segundo estudiosos, inicialmente os trulli serviam de túmulos para os mortos. Depois, passaram a ser construídos por pequenos agricultores e pecuaristas, que mantinham seus rebanhos na montanha, e, quando estavam cuidando dos animais ou da lavoura, usavam os trulli como alojamento para dormir e comer. Ainda hoje é possível encontrar trulli em meio a oliveiras do Salento.

Na cidade, os trulli apareceram em meados do século 16. Era o método construtivo ideal para quem queria fugir dos impostos altos cobrados pela província por área construída. Os trulli tinham uma pedra central, no alto do teto. Quando retirada, o teto caía e o fiscal não podia cobrar o imposto, pois a casa estava em construção.

Em Alberobello, patrimônio mundial da humanidade, título concedido pela Unesco em 1996, o centro histórico é todo de trulli. As construções podem ser alugadas para temporadas. As casas foram incrementadas, ganharam quartos, aquecimento e cozinha.

Castelo árabe

O mourisco, estilo arquitetônico islâmico do Magreb, aparece em muitas casas da região, mas uma construção chama a atenção dos que trafegam pela estrada litorânea que liga Otranto a Santa Maria de Leuca. Trata-se do Palazzo Sticchi, em Santa Cesarea Terme. Colorido, imponente, com sua torre tipicamente islâmica, o Palazzo se ergue em meio às casas baixas, quase todas brancas ou em pedra leccese, da pequena cidade salentina. Oronzo Scoletta, morador da região, conta que a obra foi feita pelo engenheiro Pasquale Ruggieri, um apaixonado pela arquitetura do Norte da África, entre os anos 1894 e 1900. Ruggieri havia viajado muito pelo continente e, quando retornou na Itália, construiu o castelo.

Com açúcar e com afeto

Na Puglia, escolher os doces para a sobremesa ou para o café da manhã é uma tarefa difícil. São muitas as opções e cada cidade tem a sua especialidade. A influência árabe aparece nas receitas e nos ingredientes das guloseimas, como mel, canela e amêndoas, esta última serve de base para os tradicionais pasticciotto de Otranto, recheados com creme, e que dão água na boca dos visitantes. A massa é simples: uma mistura de amêndoas e açúcar. Creme é o recheio tradicional, mas geléia de pêra, figo e até nutella (companheira inseparável dos italianos) combinam bem com a massa.

Nos pratos principais, os temperos como orégano, sálvia, hortelã e alecrim é que dão o tom a peixes, carnes e massas do Salento. Um prato tradicional é a tria, que deriva do árabe ‘itriya’. Trata-se de macarrão no formato tagliatelle, mas um pouco mais grosso, frito e servido com um caldo de grão de bico. Para acompanhar, os vinhos da região, negroamaro ou primitivo, que têm alto grau alcoólico e há bem pouco tempo serviam de mistura para os vinhos do norte, com baixo grau alcoólico. Agora, assim como a Puglia, os dois vinhos passaram a ser apreciados na Itália e já começam a atravessar fronteiras.


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