A bicicleta
Joel Santos Guimarães
COISAS NOSSAS
[06/07/2010]
Ele já não sabia mais contar quantas foram as noites com que sonhou que o pai havia lhe dado uma bicicleta de presente. Era ‘a bicicleta'. Não era uma qualquer, como aquelas de segunda-mão que o Chicão do ferro -velho vendia. Era o sonho sobre duas rodas! Vermelha, guidão para baixo, pneus com tala branca. O último lançamento da Monark. Uma beleza! A bicicleta era o objeto de desejo de 11 em cada 10 crianças da cidade.
Nos seus sonhos de todas as noites, o menino e sua magrela percorreram todas as ruas e becos da pequena cidade do interior. Do centro às ruas das vilas da periferia, e até mesmo na Chacrinha, o puteiro mais conhecido da cidade-jóia. Em seus sonhos, meninas das mais bonitas e prendadas da cidade vinham para as janelas, ou até aos portões de suas casas, para ver aquele moleque magro pedalando a sua bicicleta. E elas suspiravam, sorriam para o menino. Pediam para dar uma volta na magrela. Ele se sentia a própria ‘Banda’, do Chico Buarque: todas paravam para vê-lo passar pedalando a sua Monark. Nos seus sonhos, muitas topavam até dar uma volta apoiadas no cano, bem na sua frente. O roçar dos corpos deixava o menino excitado. Acordava suado.
Bastava dormir para sonhar com o presente que esperava ganhar do pai. Havia até batizado a sua Monark: Josê, uma das mais jovens e bonitas putas da Chacrinha, e sua primeira paixão juvenil. Se ao dormir sonhava, fazia o mesmo quando acordado. O palco de seus sonhos era o quintal da casa onde morava sua família - pai, mãe e irmãs. Quando voltava da escola, costumava ficar no quintal brincando sozinho. Ora era um grande jogador de futebol, outra um mocinho que lutava contras os bandidos. Imaginava personagens, incorporava-os. Ali viveu grandes aventuras: salvou princesas aprisionadas em castelos, fez parte do bando de Robin Hood, aquele que roubava dos ricos para dar aos pobres.
O menino também gostava de poesia e improvisava. Imaginava estar diante de uma imensa plateia, lia versos dos seus poetas de cabeceira: Castro Alves, Manuel Bandeira, Gonçalves Dias, entre outros. Castro Alves era o seu preferido. Foi com Navio Negreiro, onde o poeta baiano faz uma severa crítica à escravidão e aos horrores vividos pelos negros enviados de navio às terras brasileiras, que o menino descobriu as injustiças do mundo e o tacão dos opressores. Os versos que mais tocavam o coração do jovem eram aqueles em que o poeta invoca Deus e a própria natureza para botar um fim aos horrores da escravidão. Versos que ele costumava ler em altos e brados: ‘Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade/Tanto horror perante os céus?!’.
Num dia de semana qualquer, uma tia, irmã de sua mãe, depois de ouvi-lo declamar o Navio Negreiro e emendar com outros versos de Castro Alves - ‘a praça é do povo como o céu é do condor’ - achou por bem alertar a mãe do garoto: ‘irmã, esse menino anda lendo poesias subversivas. Além disso, notei que seus gibis preferidos são os que trazem aventuras do Robin Hood, aquele assaltante inglês safado. É bom você vigiar mais as leituras desse menino, ele pode virar comunista’.
O garoto, que estava na cozinha matando a sede, ouviu os comentários da tia. Com receio de que a mãe fosse chamá-lo para lhe dar uma bronca correu para o quintal e resolveu brincar de expedição. Um barranco separava o quintal da casa dos fundos do armazém atacadista da empresa em que seu pai era gerente. Na beira do barranco havia uma grande árvore, onde o garoto amarrou uma comprida corrente, que usava para descer o barranco e chegar às paredes dos fundos do grande armazém. Ali, segundo suas fantasias, ficava ora a praça do povo, ora a ilha do tesouro, procurada pelos expedicionários.
Naquele dia, o menino brincava de caça ao tesouro. Só que o expedicionário não encontrou tesouro, mas decepção. Quando desceu do barranco e chegou em terra firme, caminhou encostado pelas paredes laterais do armazém. Ao dobrar a quadra, para chegar à parede do fundo da construção, o que viu gelou seu coração. Seu pai, seu ídolo, trocava beijos e carícias com Irene, sua secretária. Mesmo assustado e decepcionado, não pode deixar de olhar as belas pernas de Irene, que o pai acariciava. Naquele momento, sua principal referência, seu guia, começava a desmoronar. O homem de moral e bons costumes - pelo menos era assim o pai se definia nos santinhos de sua campanha de candidato a vereador - já não tinha tanta moral assim e os bons costumes, a fidelidade, a ética que tanto pregava, na prática, eram valores jogados no lixo em troca das belas coxas de Irene. Uma menina de 16 anos.
Amortecido pela decepção, o menino só fazia olhar para a cena do pai abraçado e comendo, em pé, aquela menina. Nesse instante, o pai, entre um beijo, uma virada de olho, e uma mordida no cangote de Irene, abriu os olhos e viu o filho, que tudo observava. Insensível, disse apenas: ‘vá para casa. Fique quieto. Quando chegar conversaremos’. Assustado, o garoto foi. Ao chegar em casa, correu para o quarto e chorou - todas as lágrimas do mundo. No início da noite, o pai chegou. Fazia muito barulho e chamava o filho para a ver a surpresa que ele queria lhe mostrar. Ressabiado e com muita raiva no coração, o menino atendeu o chamado do pai. Quando chegou lá estava ela: a tão sonhada Monark, ‘a bicicleta’. Linda, vermelha e de pneus com talas brancas. Mas não era a mesma coisa. O presente tão sonhado virou pesadelo. Não era a manifestação de carinho do pai em forma de presente, mas sim um instrumento para comprar o silêncio do filho.
A bicicleta dizia o que o pai não tinha coragem de dizer: aqui está sua monark, só não conte o que viu para sua mãe. O filho agradeceu o presente. Voltou ao seu quarto, sem nem mesmo dar uma volta na tão sonhada magrela. No dia seguinte, foi para escola. Na volta, na hora do almoço, contou para mãe o que tinha visto. Era uma questão de lealdade. E a bicicleta? Em dois meses, aquele objeto de desejo em duas rodas, lindo e motivo de sonhos tão bonitos, virou um monte de ferros retorcidos. O menino, frio e calculadamente, destruiu a magrela, o sonho que se transformou em seu primeiro pesadelo.