Arquivo Pessoal
A editora de Projetos Especiais da Meios, Claudia Abreu, em Roma
O país que não cresceu
Claudia Abreu, de Roma
MEIOS
[02/07/2010]
Roma, Itália – Desde que cheguei a Roma, na Itália, tento contatar o adido cultural brasileiro na cidade. Sem sucesso. Até o adicionei no Facebook, enviei mensagens simpáticas me apresentando, propondo uma conversa, enviei e-mails. Nada. Como sabem, sou jornalista e, depois de mais de 10 anos de trabalho duro nas redações dos principais jornais e revistas de São Paulo, resolvi tirar um ano ‘quase’ sabático para estudar curadoria de museus em Roma – digo quase porque continuo fazendo matérias para o Brasil, para a Agência Meios. O curso que estou fazendo é fantástico, abre muitos caminhos, dando inputs sobre como divulgar melhor a produção cultural brasileira mundo afora, por exemplo. E tudo isso eu gostaria de dividir com os representantes diplomáticos do Brasil em Roma. São ideias que estou procurando organizar, amparar cientificamente, para poder apresentá-las e, claro, implantá-las, de modo que possa enriquecer a promoção da cultura brasileira no exterior.
Minha pesquisa caminha em duas direções: os institutos e academias estrangeiras em Roma e a didática dos museus. Na primeira linha, avancei um pouco durante esses dias e fiquei decepcionada com o que vi do Brasil, em comparação com outros países europeus, como França e Alemanha, e também Estados Unidos, Egito, mas até mesmo nações ‘menores’ como Romênia, Hungria e Argentina. Os ‘erros’ começam na apresentação do site do Centro de Estudos Brasileiros, com a página que mostra a nossa ‘cara’ na grande rede. Ali somos o país que não cresceu, um garotinho com bochechas rosadas, boné, que está simplesmente brincando. A imagem vai contra todo o esforço do presidente Lula de mostrar ao resto mundo que somos grande, um país maduro, que quer uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU (alguém daria uma cadeira para um moleque de boné?), que cresce ancorado numa política econômica, social e cultura sólida. A fonte da letra usada completa o quadro e nos faz pensar que a página é para minha filha de 6 anos (não que eu não ache importante termos um espaço para crianças no site, mas não desse modo). Estamos em Roma, vitrine do mundo, a cidade que mais recebe turistas no planeta. A embaixada brasileira fica na Piazza Navona, um local fantástico, um ‘palazzo belíssimo’ e pouco mostra do país, apenas fortalece todos os nossos estereótipos. Não mostra o país do presente.
Como disse, é aqui em Roma que todas as academias de cultura, da França, passando pelo Egito, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e tantos outras nações apresentam seus artistas, sua arte jovem. Misturam um pouco artistas consagrados, mas são focados no desenvolvimento da nova geração, capaz de criar novos meios de expressão. Trabalham incentivando a arte contemporânea. Ao todo são 34 institutos e academias (o Centro de Estudos Brasileiros entre eles) com a função de promoção cultural. Boa parte delas oferece bolsa de estudos e residências para artistas, que devem desenvolver um projeto na cidade eterna. No final de cada temporada, as instituições organizam grandes mostras, que são destaque na mídia, atraem turistas, galeristas, colecionadores de arte. A cidade fica em festa, turistas de todo o mundo agradecem.
A pergunta que faço em tempos de eleições é: por que não podemos trabalhar melhor a imagem do Brasil? Roma seria um caminho, pois, como disse, a cidade tem uma vocação natural para vitrine. Por que não podemos promover a nossa produção cultural no exterior de modo mais sério – e tirar de uma vez esse estereótipo do ‘país-criança’, engraçadinho, moleque? É de dar pena. Depois de falar de Gil, quando ocupou o cargo de ministro, de Lula, me envergonhei quando, diante dos meus colegas de curso (gente de toda a Europa) abri a página do Centro de Estudos Brasileiros. A visita à Piazza Navona só fez piorar a impressão. Para o site, podemos nos inspirar nos sites da Villa Médici ou da Villa Massimo ou, simplesmente, usar a nossa criatividade para fazer algo melhor, que mostre, realmente, a nossa ‘cara’. Temos artistas importantes em nosso território, em todos os campos: nas artes plásticas, na música, no cinema. Temos de incentivá-los realizando mostras com mais frequência, aproveitando o belo espaço da Piazza Navona, temos de ter uma programação anual, como faz Villa Médici, Villa Massimo, Accademia de România, da Ungheria, Americana e tantas outras. Ter um site ativo, com notícias, com informações relevantes sobre a cultura e arte brasileira (a Argentina, com a Casa Argentina, faz isso melhor do que a gente aqui na Itália). E por que não podemos ter um programa de residência para artistas em Roma. Por que não desenvolvemos um prêmio para arte contemporânea, uma premiação que traga artistas para Itália, para que eles respirem arte por um tempo e enriqueçam ainda mais a nossa cultura quando retornarem ao Brasil?
Ainda estou no começo da minha pesquisa, com certeza, descobrirei muitas outras coisas interessantes e que podem ser adequadas à nossa realidade. Só gostaria de ser ouvida, de dividir, de enriquecer a cultura do meu país, que, inclusive, custeou a minha passagem, por meio de um programa do Ministério da Cultura. Para quem ficou curioso, basta clicar nos sites: www.villamedici.it, www.ambasciatadelbrasile.it, www.villamassimo.de, por exemplo, para ter uma ideia do que eu estou falando. É a nossa imagem. Devemos estar atentos. Somos um grande país, não um moleque de boné.