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Russos, petróleo e bioenergia

Cláudia M. Abreu*

FRONTEIRA SUL

[27/11/2008]

Petróleo e biocombustíveis. São os principais assuntos da pauta do presidente da Rússia, Dimitri Medvedev, que está visitando o Brasil esta semana. Na terça-feira (25), Medvedev se reuniu com o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, no Rio de Janeiro. O encontro serviu para abrir portas à cooperação entre a companhia brasileira e empresas russas, principalmente em áreas como exploração e produção de petróleo e gás natural, pesquisa e desenvolvimento e biocombustíveis.

A Petrobras já tem um memorando de entendimentos assinado com a Gazprom, maior empresa russa no setor de gás natural e uma das maiores produtoras e detentoras de reservas mundiais do produto. A companhia russa deve abrir um escritório no Rio de Janeiro no próximo ano.

O presidente russo também foi apresentado aos biocombustíveis, produzidos a partir de cana-de-açúcar, mamona, girassol, soja etc. Medvedev visitou uma exposição e recebeu informações sobre a produção de biocombustíveis no Brasil, as pesquisas realizadas e sobre o desenvolvimento dos veículos flex. Medvedev leva na bagagem dados de sobra sobre o etanol e o biodiesel, os trunfos brasileiros para a substituição da principal base energética mundial atualmente: o petróleo.

Mais bioenergia

Ainda no assunto biocombustíveis, o país poderá avançar ainda mais nas pesquisas sobre o tema com um projeto inovador: a Cidade da Bionergia. Previsto para início em 2009, o projeto reúne esforços e investimentos da iniciativa privada e do setor público. Serão investidos R$ 80 milhões na construção da Cidade da Bionergia. O munícipio escolhido para abrigar o projeto foi São Carlos, interior de São Paulo. A área é de propriedade da Embrapa Pecuária Sudeste, são 240 hectares onde será construído um parque permanente, com espaços para realização de negócios, cursos e exposições. "Uma espécie de Disneylândia da bionergia", diz uma fonte da iniciativa privada.

O primeiro passo efetivo para a implantação do projeto foi a assinatura, na semana passada, em São Paulo, de um memorando que homologa a Cidade da Bionergia. Assinaram o documento os ministros da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, e da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende. O convênio prevê o começo das obras no próximo ano.

Nanotecnologia

Outra novidade para 2009 é que a Embrapa vai inaugurar, já nos primeiros meses, o Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio, uma parceria entre a Empresa e o Ministério da Ciência e Tecnologia. O laboratório também vai colaborar com estudos e pesquisas para os projetos a serem realizados na Cidade da Bioenergia.

A crise e a agricultura

Para mitigar os efeitos da crise econômica mundial na agricultura brasileira, o governo do país precisa resgatar a lei PGPM (Política de Garantia de Preços Minímos), um texto antigo, que tem mais de 30 anos. Essa é a opinião do presidente do Conselho Superior de Agronegócio da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, em entrevista à rádio CBN.

De acordo com Rodrigues, o mecanismo é simples: o governo, por meio da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), calcula os custos de producão dos produtos agrícolas anualmente, estipula uma margem de lucro pequena e estabelece um preço mínimo, que será pago ao produtor no final da colheita. “Se os preços caírem abaixo desse valor mínimo, o governo intervém. Pode comprar, pagar a diferença, financiar, a PGPM prevê várias formas de negociação”, diz. Para o ex-ministro, trata-se de um método que equilibra o mercado. “É uma forma de balisamento, não é um subsídio (como o americano, por exemplo)”, afirma.

Toma lá

Os resultados, segundo Rodrigues, são imediatos. Primeiro, os bancos, “que ficariam mais dispostos a financiar os agricultores, pois teriam mais segurança na operação de crédito” (o ex-ministro diz que os bancos privados, apesar do governo ter liberado dinheiro para a agricultura, preferiram, por conta da crise, investir em títulos do tesouro, que são mais seguros). O outro ponto é que a safra de 2009/2010 deixaria de ser uma “aventura” incerta. “Seria uma oportunidade na crise, pois teríamos uma boa safra quando, por conta da instabilidade mundial, os outros países produtores estão reduzindo a produção”, disse. Os recursos viriam do orçamento do Ministério da Agricultura.

E a indústria

A crise financeira internacional já provoca os primeiros efeitos na indústria brasileira. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, os empresários do setor estão cautelosos. Para ele, o quarto trimestre deste ano permanece "garantido" porque os pedidos já estavam em carteira, mas o cenário de precaução para o primeiro trimestre de 2009 é bastante claro.

No momento em que os empresários colocam o pé no freio, a alta de 13% para 13,75% nos juros, de acordo com a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, contribui para agravar o quadro. Aubert diz que os juros prejudicam o investimento e, conseqüentemente, a produção. "Estamos, mais uma vez, próximos de perder uma grande oportunidade em relação ao país que queremos ser", diz o empresário.

Segundo Aubert, as empresas avaliam a taxa de retorno sobre a taxa de juros para comprar. "Quanto maior essa taxa de juros, menor será o investimento", enaltece. Aubert diz ainda que "taxa de juros é um ponto crucial e, com toda essa crise, o Banco Central deveria tirar a mão pesada sobre eles." O presidente da Abimaq relata que o setor não quer proteção, mas isonomia para competir. "O Brasil é o único país do mundo que tributa quem compra máquina. A nossa taxa real de juros é bem maior, se comparada a de outros países. Não precisamos de proteção, mas de isonomia, de igualar as condições que temos às dos outros, lá fora", diz.

As exportações

Para Aubert, a exportação não está ruim, mas caiu bastante em relação à década de 80, quando a indústria brasileira de máquinas era a quinta no volume de fabricação mundial. Hoje, o Brasil está apenas no 14º lugar. Os últimos números do setor, de agosto passado, por exemplo, mostram que as exportações foram 6,7% menores do que em julho, mas 8,2% maiores do que as de agosto de 2007. A queda das exportações ampliou em 12,8% o déficit da balança comercial do setor, o que também preocupa. As importações subiram 3,3% em agosto sobre o mês de julho e 46,5% sobre igual período do ano passado. Em valores, o crescimento foi de 1,3% em agosto, com o faturamento da indústria de máquinas chegando a R$ 6,8 bilhões, o que representa quase 14% a mais do que o apurado no mesmo mês do ano anterior.

A crise na maior economia do mundo acelerou um processo que já havia se iniciado, com certa timidez: a Abimaq tem incrementado os negócios com países sul-americanos. Segundo Aubert, está sendo possível compensar parte da perda nas vendas para os Estados Unidos com as exportações para países da América do Sul, por exemplo, que, segundo ele, têm grande potencial de consumo.

Amazônia e defesa nacional

O Plano Estratégico de Defesa Nacional, em elaboração pelo governo federal, trata a defesa da Amazônia como uma ação combinada entre desenvolvimento econômico e sustentável, com a presença militar na região. A informação é do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), integrante da diretoria da Frente Parlamentar da Defesa Nacional, que teve acesso a uma prévia do documento na terça-feira (25).

Rebelo classificou o plano de “ousado” e disse que os trabalhos estão adiantados. O parlamentar acredita que o documento deve ser apresentado no prazo previsto, até dezembro. De acordo com o deputado, divergências com o Paraguai e com o Equador não tiveram influência na elaboração do plano.

Hermanos

O governo paraguaio defende a revisão do preço pago pelo Brasil pela energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Na semana passada, autoridades do Paraguai acusaram militares brasileiros de terem “violado” o território daquele país, o que, segundo a assessoria do Itamaraty, não passou de um mal-entendido já esclarecido.

Em relação ao Equador, o embaixador do Brasil em Quito, capital do país vizinho, Antonino Marques Porto, foi chamado ao Brasil depois da decisão do presidente Rafael Correa de suspender as obras da Usina Hidrelétrica San Francisco, feita pela Odebrecht, e não pagar o empréstimo feito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de US$ 243 milhões para a construção da usina.

*Colaborou Geovana Pagel


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