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Claudia M. Abreu/Agência Meios
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Danielli fez de cada dificuldade uma oportunidade

Seguindo a profecia

Cláudia M. Abreu

ANBA

[24/10/2008]

São Paulo - Sexta-feira de sol em São Paulo, depois de um longo período de tempo fechado. Danielli Haddad chega para entrevista à ANBA esbanjando carisma. Sorriso no rosto e olhos vivos, começa a contar a sua história. Uma história de empenho, dedicação e vitória. Médica cardiologista e chefe do Centro de Acompanhamento da Saúde e Check-Up do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, Danielli estudou Medicina com bolsa de estudo, morou em pensionato e chegou a passar seis meses longe da família. Nunca desanimou, fez de cada dificuldade uma oportunidade, ensinamento que aprendeu com sua família. Traçou metas – revisadas a cada dois anos, como gosta de lembrar – e chegou lá. Chegou onde queria estar, pelo menos para a idade que tem hoje, 36 anos, diz ela, que está sempre buscando coisas novas. Ficar “patinando na vida”, como gosta dizer até mesmo para os pacientes, não é com ela.

Danielli cresceu no interior paulista, na cidade de São Carlos. Tem no sangue uma mistura de árabes, italianos e espanhóis. “Mas a cultura sírio-libanesa acabou predominando”, diz. “Não me lembro de ter comido verdura quando criança, as mesas eram cheias de quibes e esfihas e, em todas as festas, tinha de ter dança árabe”, lembra Danielli. Pioneirismo, como mostrou quando foi chamada para coordenar os trabalhos do Centro de Acompanhamento da Saúde e Check-Up, também aprendeu na infância, com a família. Os avós, tanto maternos quanto paternos, tiveram seus negócios próprios, foram pioneiros na cidade, enfrentaram crises econômicas, faliram e depois se reergueram. “Nos ensinaram a buscar ser feliz em qualquer condição, com motorista contratado ou andando a pé, e a superar os obstáculos”, conta Danielli que, ainda criança, ouviu os pais contarem que o avô dizia que, quando ela crescesse, seria médica do Sírio. “O hospital era orgulho da comunidade árabe e meu avô, como tantos outros descendentes, tinha dado uma pequena contribuição financeira à entidade”, diz.

A inspiração para cursar Medicina, no entanto, foi um tio, Jorge Haddad Filho, o primeiro da família a se formar médico – hoje são em oito, com Danielli. “Ele é pediatra e dizem que os pediatras são os melhores médicos que existem, pois eles abraçam a família toda. E eu o via chorando escondido quando uma criança falecia, via as pessoas ligando em casa para agradecer a cura do filho. Notei que o que ele fazia era algo de impacto na vida das pessoas. Isso foi determinante”, lembra. Mas estudar Medicina implicava numa mudança de vida radical, sair de casa, morar numa cidade grande e, no português bem claro, se virar. E foi o que Danielli fez. Estudou sério para cumprir uma promessa que tinha feito ao outro avô, o italiano, antes dele falecer de infarto. “Disse que eu passaria em primeiro lugar na faculdade. Quando me chamaram na Santa Casa (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo), logo após o resultado do vestibular, achei que tinham errado ao me convocar, mas não, era para dizer que eu tinha sido a primeira colocada”, conta.

Na capital paulista, Danielli encontrou uma cidade pujante, que não parava também no campo acadêmico. “As oportunidades eram muitas, principalmente na área de pesquisa, conhecimento”, diz ela, que foi ficando por aqui. Agora, já são 18 anos em São Paulo. Para estudar na Santa Casa , pleiteou uma bolsa de estudo e fez muita monitoria para abater do valor da mensalidade. Com o término do curso regular, foi fazer residência em clínica geral no Hospital das Clínicas. A decisão por cardiologia veio um pouco mais tarde. “Sempre gostei de tudo, mas queria fazer uma subespecialidade que abrangesse a maior parte das causas de morte das pessoas. Eu não queria fazer uma subespecialidade com campo de atuação restrito e hoje o que mais mata é doença cardiovascular”, diz Danielli, que foi fazer residência no Instituto do Coração (Incor). A morte do avô por infarto também influenciou na decisão. “Quando ele faleceu, estávamos nos preparando para uma grande viagem, ele viajou o mundo, sempre brincava com os netos. Rodava o mapa do mundo em forma de globo e fazia a gente apontar o dedo. Sempre tinha uma história sobre aquele lugar”, lembra.

A viagem com o avô não deu certo, mas Danielli foi sozinha. Não foi conhecer o mundo inteiro, tinha um destino certo, os Estados Unidos. “Estava empolgada com a história de prevenir as doenças e descobri que havia um centro de referência nos Estados Unidos, fiz contato e, em 2001, viajei”, diz. O centro era a Mayo Clinic Jacksonville, que tinha um programa especial para executivos. Na época, Danielli já trabalhava em três importantes hospitais no Brasil, o Sírio Libanês, o Albert Einstein e o Oswaldo Cruz. Dois deles já tinham programas na linha do que existia nos Estados Unidos, o Einstein e o Oswaldo Cruz, o Sírio ainda não. E Danielli viu uma oportunidade. Mas a vida andou, ela abriu sua clínica, deixou o trabalho nos hospitais, engravidou e o projeto ficou na sua gaveta de idéias.

No dia do nascimento de sua filha, Danielli recebeu a ligação com a proposta do Sírio: montar o Centro de Acompanhamento de Saúde e Check-Up do hospital. “Com o apoio da família e todo o furor de mãe, aceitei o desafio”, brinca Danielli. “Estava com três bebês para cuidar: minha filha, o Sírio e a minha clínica, que também estava no começo, mas abracei tudo, fui formando equipes competentes em todos os ambientes, inclusive em casa, para dar conta de tudo”, conta. No projeto do Sírio, o olhos vivos, atentos fizeram a diferença. Danielli sabia que tinham excelentes concorrentes no mercado de check-ups executivos e tinha de encontrar um diferencial para o serviço que ofereceria. Uma das idéias foi personalizar cada vez mais o check-up com exames direcionados ao perfil do paciente. E estabelecer uma parceria com todo o corpo clínico do hospital. “Antes mesmo de levar o resultado para o paciente, se o exame apresenta algum problema, a equipe do centro fala com o médico top naquele assunto e depois transmite isso ao paciente. É claro que fazer o tratamento com o médico consultado por nós é outro assunto, quem decide é o paciente. Se ele tem um médico de confiança, os exames e todas as recomendações serão encaminhadas ao profissional”, explica Danielli.

Outra preocupação da doutora, que acredita que clareza e objetividade poupam tempo, foi com relação à aderência do público. “Até a planta do departamento foi pensada para atrair as pessoas e deixá-las confortáveis. Por exemplo, todos os exames são realizados num único andar. A entrada não é a mesma do hospital para a pessoa não pensar que está doente, e sim prevenindo doenças”, diz. Danielli também focou o trabalho da equipe no pós-check-up, fazendo um acompanhamento da evolução do paciente. “Tentamos fazer ele entender que é preciso mudar hábitos, por exemplo. Isso é promoção à saúde”, diz ela, que sempre tem uma palavra amiga aos pacientes. “Digo que a gente tem que fechar o dia com um balanço bom”, diz. E isso, segundo Danielli, só pode ser conseguido com uma receita fácil de falar, mas que exige muita coragem para ser executada: fazer aquilo que dá prazer. “Não passar a vida arrastando correntes”, encerra ela, que se tornou uma espécie de psicóloga dos pacientes, “e, se precisar, dou bronca”, completa.


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