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Cláudia Abreu/Agência Meios
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Para Oliveira, frio e seca prejudica o café

Um novo tempo na roça

Isaura Daniel e Geovana Pagel

ANBA

[03/09/2008]

Quem observar a propriedade do agricultor Eduíno Wilkomm, no interior da cidade gaúcha de Santa Rosa, vai perceber que a quantidade de vacas que pastam por ali vem aumentando ano a ano. Também vai notar que as áreas com plantio de milho e de soja têm diminuído. Já há alguns anos Wilkomm resolveu investir mais em produção leiteira e menos na lavoura para fugir das perdas de safras de soja e milho ocasionadas pelos problemas de estiagem.

Wilkomm afirma que a pastagem, mesmo ficando com um longo tempo sem água, se recupera mais facilmente após uma breve chuva. “Diferentemente da soja e do milho, que você perde a cultura e só vai poder plantar de novo no ano seguinte”, explica. O gaúcho não é doutor em meteorologia e nem tem grandes estudos em agricultura, mas já percebeu que vem chegando um novo tempo na roça. Os períodos com falta de chuva estão mais longos e o calor maior. A chuva chega menos vezes, e quando vem, é mais forte e arrasadora.

Dentro dos laboratórios e salas de pesquisas agrícolas todos sabem que esses são os primeiros sinais de uma mudança climática anunciada com o nome de aquecimento global. E que os sintomas tendem a se agravar. A terra deve ficar mais quente e, por conseqüência, os períodos com falta de chuva mais longos e as chuvas mais concentradas. “Quando chover, vai chover muito, e a seca vai ser mais forte”, diz o superintendente de Usos Múltiplos da Agência Nacional das Águas (ANA), Joaquim Gondim.

Mas como vai ser produzir alimentos numa terra mais quente, de maior estiagem, com mais cheias? O produtor Wilkomm ainda não tem certeza, não recebeu relatórios ou grandes orientações sobre o tema, apesar de saber do tal aquecimento da terra. E assim como o catarinense Jair José Schwengber, o mineiro Antônio Roberto de Oliveira, e milhares de Josés e Pedros, produtores agrícolas do Brasil afora, o gaúcho vai improvisando e usando as técnicas que conhece para conviver melhor com a falta e o excesso de água na roça.

Junto com os institutos de pesquisas e governos, esses produtores formam um movimento brasileiro de aprendizado de como plantar e colher num planeta mais quente. Semear o milho mais cedo, lá por final de agosto, é uma das soluções encontradas por Wilkomm para evitar que o produto sofra tanto com a seca. Na última safra foram três meses de estiagem na sua região. Também a rotação de cultura – plantar milho onde plantou soja e vice-versa - é adotada. “A raiz do milho é mais profunda, deixa a terra mais macia e facilita a penetração da água no solo. Quando chove, então, segura mais a umidade”, diz.

O produtor Schwengber, da cidade catarinense de Itapiranga, também observa mais a época do plantio – e semeia o milho mais cedo - desde que se deparou com as secas mais longas. Deixar o solo sempre coberto, para conservar a umidade da terra, é algo que ele aprendeu faz tempo e não abre mão. Schwengber planta 50 hectares de soja e 50 de milho no verão. No inverno, cultiva 50 hectares com trigo. O restante da terra fica coberto com nabo. O catarinense também reduz quantidade de plantas por área de lavoura para, segundo ele, reduzir a disputa pela água entre elas. Ele já chegou a usar sementes de milho adaptadas ao calor, mas admite: tem pouca informação sobre o que o clima reserva para a sua terra.

O paranaense Ivanir Marteli, dono de uma propriedade de 250 hectares no município de Medianeira onde planta soja, milho e cria suínos, percebeu as alterações de clima na última década. “Antigamente a chuva era certa em determinados períodos. Agora varia muito, não tem mais lógica nem de época, nem de quantidade. Uma chuva de 40 milímetros deixava o solo úmido por um bom tempo. Agora em poucos dias já fica tudo seco”, diz. Outra mudança observada pelo agricultor é o aumento de temporais e chuvas de granizo.

Preocupado com o futuro de sua família e do planeta, o produtor buscou orientação e investiu para tornar sua fazenda sustentável. Há mais de dez anos trata os dejetos dos suínos e há um ano construiu um biodigestor, que transforma o gás metano em energia. “Hoje 80% da energia consumida na fazenda é gerada pelo biodigestor”, conta. A propriedade tem poço artesiano - para poupar a água das nascentes - e lagoas construídas para coletar a água da chuva e evitar a erosão do solo. A terra é preservada ainda com plantio direto e curvas de nível. “Além da reserva legal de 20% da propriedade com mata natural, temos uma área de eucalipto para manejo florestal”.

Montanha de 35 graus

Na propriedade do mineiro Antônio Roberto de Oliveira, em São Pedro da União, a chuva também não chega mais no tempo certo. “Antes chovia bem em setembro. Agora só outubro e novembro e ainda assim são pancadas tão fortes que compactam o solo e levam a terra fértil embora”, afirma. Isso sem falar da temperatura cada vez mais alta. “Nosso região tem clima de montanha, mas esse ano fez 35 graus em janeiro e fevereiro”, conta. Foi justamente esse destempero climático que provocou um prejuízo de 70% na safra de café de 2007. “Frio e seca nos meses de fevereiro e março impediram o café de florar”.

Para continuar bebendo água limpa e cristalina, Oliveira protege os mananciais das nascentes e para seguir tirando o sustento da terra busca orientação de técnicos e agrônomos. O agricultor já ouviu falar das variedades mais resistentes desenvolvidas pelos institutos de pesquisa, mas continua cultivando as variedades tradicionais como o catuaí e o icatu. “Como o café é uma cultura perene, de longo prazo, os produtores ainda têm um pouco de receio de substituir a plantação por novas variedades. Mas, se as mudanças continuarem se intensificando, no futuro, esse deve ser um caminho”, acredita.

Os grandes produtores rurais - com maiores condições de acesso a novas tecnologias, também contabilizam perdas. “O calor cada vez mais intenso aumentou os problemas com pragas e doenças no café”, conta Reginaldo Figueiredo, com fazendas em Cristalina, Goiás. “Vivemos em uma região privilegiada, com altitude alta. Mesmo assim já é possível perceber um aumento da temperatura de quatro anos para cá. A temperatura em agosto não passava de 25 graus. Nesse ano registramos 30 graus”, diz.

Além de café, a família Figueiredo também produz soja, milho e feijão. Apenas no entorno de Brasília são 18 mil hectares. Como o feijão e o café são irrigados, foram construídas barragens nas próprias fazendas, que também acumulam a água da chuva. O plantio direto, utilizado nas lavouras da família há 15 anos, agora passou a ser feito com leguminosas como braqueária e milheto. “As leguminosas formam uma camada de matéria orgânica no solo que ajuda a conservar a umidade por mais tempo”, explica.

Veja as outras matérias da série nos próximos dias.


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