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Escambo do Século 21

Joel dos Santos Guimarães*

FRONTEIRA SUL

[25/06/2008]

São aulo - O Brasil importa atualmente 70% dos fertilizantes que consome, principalmente potássio (90%), os fosfatos e os nitrogenados. Os países árabes, por sua vez, compram no mercado internacional 90% dos alimentos necessários para atender as necessidades de suas populações. No jargão popular é a fome e a vontade de comer.

Para solucionar essa equação, o país negocia com os países árabes produtores a exportação preferencial e regular de commodities - carne bovina, de frango, soja, café e fruta - em troca de fertilizantes, que seriam fornecidos regularmente por aquela região do mundo.

Esse fornecimento seria um adicional daquilo que os árabes já importam do Brasil. E com preços inferiores ao mercado internacional. O mesmo vai acontecer com a importação adicional pelo Brasil dos fertilizantes produzidos no mundo árabe.

Essa operação, o Escambo do Século 21, estaria sendo discutida pelo governo Lula com Marrocos, Argélia, Tunísia, Síria, Jordânia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Esses países são considerados os mais importantes produtores mundiais de matérias-primas de fertilizantes.

A relação de troca é considerada tanto pelo Brasil como pelos árabes como extremamente importante e complementar para os dois lados. Os árabes terão ao seu dispor uma fonte regular e confiável de alimentos e, em contrapartida o Brasil terá, a curto, médio e longo prazo, um supridor estável e regular de fertilizantes.

Se concretizada tal operação, a previsão é a de que o país consiga reduzir em parte seus custos com a importação dos fertilizantes, o que certamente irá contribuir para a redução dos preços dos alimentos no país. Vale lembrar que os fertilizantes representam, dependendo do produto, de 15% a 30% no custo de produção do agricultor brasileiro.

Para o mercado, o Escambo 21 é uma demonstração clara de que as relações entre os países em desenvolvimento evoluíram. Eles já são capazes de analisar no que uma economia completa a outra e buscar soluções que não dependam dos humores dos países ricos - que só querem exportar seus produtos para as nações em crescimento e ao mesmo tempo colocar barreiras tarifárias naquilo que importam do que eles costumam chamar de Terceiro Mundo.

Xeque mate

Além desse acordo com os árabes, o Brasil quer aumentar a produção interna de fertilizantes. Para pressionar a iniciativa privada a investir, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, moveu um peão no tabuleiro.

Primeiro ele explicou que o valor dos fertilizantes, ao lado do aumento da demanda, é considerado o item de maior peso dentro do aumento dos preços dos alimentos, que vem pressionando a inflação. Depois mandou o recado: disse que como os fertilizantes representam atualmente quase 40% do custo de produção, e como se tornaram um fator de preocupação, o governo pode intervir no setor.

"Em princípio, nós queremos que nossas minas sejam exploradas. Mas, se for necessário, evidentemente a Petrobras terá que entrar nisso. E se for o caso, nós vamos agir também, ou até reestatizar alguns setores que são necessários", afirmou Stephanes.

Coincidência ou não, a iniciativa privada começou a anunciar investimentos com o objetivo de aumentar a produção de fertilizantes. No final de maio, por exemplo, a poderosa Bunge informou que irá aplicar R$ 3,2 bilhões em quatro novos projetos de expansão da oferta de fósforo ao mercado nacional. Em um deles, na mina de salitre, em Patrocínio (MG), a multinacional deverá investir R$ 2 bilhões. A Vale do Rio Doce também anunciou investimentos no setor.

A Petrobras planeja construir novas unidades de fertilizantes no país, em meio à forte demanda pelo produto, e deve voltar a licitar reservas de potássio que possui na Amazônia e para as quais não encontrou compradores em tentativas anteriores. Até 2010, a estatal deverá investir em uma fábrica de fertilizantes nitrogenados.

Pole position

Mesmo antes do alerta do ministro, 15 cooperativas agrícolas do sistema Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná) já vinham discutindo a implantação de uma misturadora de fertilizantes em Paranaguá, onde se localiza o segundo maior porto brasileiro. A localização é estratégica e logística, pois o mesmo caminhão que transportar a soja até o porto retorna com um frete de fertilizantes. Isso irá baratear o custo de transporte e, por conseqüência, o custo final da produção agrícola.

Hoje, as cooperativas agrícolas do Paraná importam 1,8 milhão de toneladas dos 2 milhões que consomem anualmente. Para se ter uma idéia, o mercado de fertilizantes movimenta anualmente no Paraná, estado que responde por quase 25% da produção nacional de grãos, algo em torno de US$ 3,7 bilhões.

Ativos poderosos

Os ativos externos líquidos dos países do Conselho de Cooperação do Golfo
(GCC) – Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Omã – deverão somar US$ 2 trilhões, um aumento de US$ 200 bilhões em relação ao ano passado, de acordo com relatório divulgado recentemente pelo Institute for International Finance (IIF), de Washington, Estados Unidos. Até 2012, o total de ativos do GCC no exterior deverá chegar a quase US$ 7 trilhões, de acordo com outro estudo realizado pela empresa de consultoria McKinsey, também dos Estados Unidos.

Sistema financeiro

Uma grande parcela desse montante deverá ser injetada no sistema financeiro internacional e em investimento direto nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Ainda assim, a região árabe deverá receber mais fundos do que nunca. Egito, Jordânia, Síria, Líbano, Marrocos e Tunísia serão os principais beneficiários, bem como os setores bancário, de telecomunicações, imobiliário, turístico, de construção e de infra-estrutura.

Com base em um preço médio de US$ 50 por barril de petróleo, a McKinsey afirma que os seis países membros do GCC deverão realizar investimentos da ordem de US$ 1,5 trilhão no exterior até 2012, o equivalente a aproximadamente US$ 1 bilhão por dia. Até 2020, de acordo com relatório publicado pelo Global Institute da McKinsey, esse valor poderá chegar a US$ 3,5 trilhões, elevando a riqueza externa total da região para US$ 8,3 trilhões.

”Levando em consideração um preço médio de US$ 70 por barril de petróleo, o investimento externo do GCC chegaria a US$ 628 bilhões por ano, ou quase US$ 2 bilhões por dia”, prevê o estudo da McKinsey. Se o preço do barril do petróleo caísse para US$ 30, ainda assim os ativos externos do GCC chegariam a US$ 4,8 trilhões em 2012. No pior dos casos, segundo os consultores da McKinsey, caso os países do GCC não investissem um dólar sequer no exterior, o retorno gerado pelos ativos externos existentes somaria US$ 1,6 trilhão em 2022, fazendo do GCC juntamente com a China, umas das maiores fontes de superávit de capital do mundo.

*Com Gabriel Pomerancblum e Rodrigo Solano


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