Brasil quer aumentar produção de fertilizantes
Joel dos Santos Guimarães e Geovana Pagel
PAIOL
[13/06/2008]
São Paulo - Se a produção de alimentos no Brasil aumenta a cada safra na mesma proporção cresce o preço fertilizantes, um dos itens que mais influenciam no custo de produção do agricultores brasileiros que neste ano irão colher 143,3 milhões de toneladas. Isso explica, em parte, as previsões de que a inflação brasileira, pressionada pela alta dos alimentos, continuará em curva ascendente.
A situação preocupa. Por isso, a elevação no preço dos alimentos no Brasil e no mundo e a necessidade do aumento da produção de fertilizantes usados no país foram os temas discutidos na reunião ministerial realizada segunda-feira (09) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto.
O aumento no valor dos fertilizantes é apontado como uma das causas da inflação nos alimentos e a idéia, segundo o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, é aumentar a produção brasileira do produto.
Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% do fertilizante que usa nas lavouras e a idéia do governo é reduzir essa dependência aumentando a produção local desse insumo.
"Podemos inverter isso. Importar só 20% se investirmos nas jazidas que já estão detectadas", disse José Múcio à "Agência Brasil". O aumento do petróleo e o reflexo no preço dos fertilizantes é considerado um dos responsáveis pela inflação nos alimentos no mundo.
Em relação à safra do ano passado, de acordo com Múcio, houve aumento de preço de 100% no valor do fertilizante. Diante desse quadro, o presidente Lula pediu que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, criassem um grupo de trabalho para propor estratégias e envolver a participação da Petrobras e da Vale do Rio Doce na produção de fertilizantes brasileiros.
"As providências são urgentes", resumiu Múcio. "Nossa maior dificuldade é na produção de potássio, que nas jazidas em estudo, talvez hoje seja o único elemento que não tenhamos possibilidade de ser auto-suficientes", completou.
# Estudo
Um estudo do agronômo Ali Saab, da Assessoria de Gestão Estratégica (AGE) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), mostrou que o Brasil consumiu cerca de 24,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2007.
No entanto, a produção nacional foi de apenas 9 milhões de toneladas. Além disso, o país produz apenas 10% do potássio que consome e Sergipe é o único estado produtor deste mineral.
“O fosfato é um mineral abundante no Brasil, mas há mais de 10 anos não são concedidas licenças de lavra para a exploração dele”, destaca Saab.
Segundo dados das indústrias do setor de fertilizantes, soja, milho, cana-de-açúcar e café são as culturas que mais utilizam fertilizantes no Brasil.
Entre os estados, Mato Grosso é o maior consumidor, com cerca de 16,5% da demanda nacional, seguido de São Paulo (15,6%), Paraná (14,1%), Minas Gerais (12,3%), Rio Grande do Sul (11,3%), Goiás (9,0%) e Bahia (6,3%).
A pesquisa do Mapa chama a atenção para o aumento de preços das matérias-primas básicas para a produção de fertilizantes, como uréia, sulfato de amônia, cloreto de potássio e superfosfato simples.
De acordo com o estudo, os reajustes nos preços de importação de cloreto de potássio e de sulfato de amônia foram de 80% no ano passado e os valores dos superfosfatos simples chegaram a 95%.
# Petróleo
Ainda em relação à alta de preços dos fertilizantes, o estudo já alertava sobre a interferência, no setor, dos aumentos futuros do petróleo, bem como o impacto do aumento da demanda internacional.
“Esses aumentos incidirão tanto nas matérias-primas como nos custos do transporte marítimo e rodoviário”, alerta Saab.
Ele prevê que o impacto será negativo no saldo da balança comercial, que as despesas com importação desses insumos e de matérias-primas serão da ordem de US$ 8 bilhões em 2016.
A análise dos dados chama a atenção para a existência de matérias-primas cuja produção está concentrada nas mãos de um número reduzindo de empresas, chegando em vários casos a 100% da produção nas mãos de um único grupo.
E são três as empresas que comercializam os fertilizantes no país, denotando “uma alta concentração acionária no setor produtivo de fertilizantes, no qual a tomada de decisão está concentrada nas mãos de três grandes grupos (Bunge, Mosaic e Yara)”, afirma Saab.
O estudo destaca ainda a importância de aumentar a produção interna de fertilizantes. Para Saab, este aumento da capacidade traria enormes benefícios para a competição no mercado consumidor. “O setor cooperativo e demais organizações dos produtores têm condições de levar a cabo tal empreendimento”, completa.
Segundo o agrônomo, o Mapa está estudando a possibilidade de facilitar a montagem de fábricas de fertilizantes pelas cooperativas, providenciando linhas de financiamento específicas para a compra de bens de capital e custeio também para importação de matéria-prima.