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Um centro de excelência e pesquisa genética

Cláudia Marques de Abreu

BRADESCO RURAL

[19/05/2008]

São Paulo - A Esalq, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, de Piracicaba, no interior de São Paulo, acompanhou o desenvolvimento da pesquisa genética na área agrícola no País. Os primeiros e corajosos passos foram dados nos anos 1950, com as pesquisas com o milho. De lá para cá, muita coisa mudou. O Brasil ocupa hoje um posto importante na pesquisa genética mundial, tem um conhecimento profundo de agricultura tropical e é ágil na troca de dados. Agilidade demonstrada em trabalhos como o projeto genoma da Xylella fastidiosa (bactéria que ataca os cítrus), já concluído, e outros como o genoma do boi e da cana-de-açúcar, ainda em andamento.

A Esalq foi uma das pioneiras no
desenvolvimento de variedades
de grãos como o milho. A universidade
ainda se dedica a pesquisas
com esse grão?

Sim, a Esalq foi uma das pioneiras
na pesquisa e desenvolvimento
de híbridos de milho adaptados
às diversas regiões do Brasil. Os
trabalhos começaram nos anos
1950 e duraram até os anos 1970.
A universidade era responsável
por todas as etapas do desenvolvimento.
Nesse período, foram
produzidas algumas variedades,
como Piramex, Piranão
e Centralmex, importantes
para a produção do grão no
País. Depois, com a chegada
de empresas como a Agroceres
(comprada pela Monsanto
em 1998) e com os investimentos
do governo, por meio
da Embrapa, a Esalq mudou
um pouco o foco e passou a
trabalhar com as chamadas
populações, linhagem, a parte
inicial da pesquisa.
A universidade também abraçou
a causa da formação profissional,
de preparar gente, pesquisadores,
e deixou de lado o desenvolvimento
completo, pois havia
empresas muito capazes fazendo
isso. Enquanto a Esalq tem quatro
áreas para testar as variedades de
milho, as empresas privadas têm
30. Então, deixamos esse trabalho
para elas e passamos a apostar na
formação profissional e na parte
inicial dos trabalhos.

E qual a infra-estrutura da universidade
para essa formação profissional
na área genética?

A Esalq tem hoje 19 professores no
departamento mais 70 funcionários
de apoio. São três pontos de
testes para a soja e outros cultivares
e quatro para o milho. A maior
parte dos professores estudou fora
do País, fez mestrado, doutorado
ou pós-doutorado no exterior.
Temos, atualmente, cerca de 100
pós-graduandos, que freqüentam o departamento em período integral.
Os alunos de mestrado ficam
entre dois e dois anos e meio na
escola, os de doutorado ficam entre
três e quatro anos. A universidade
também tem os alunos do pósdoutorado,
que ficam entre um e
dois anos. Esses alunos só fazem
pesquisa. É um público interessante,
importante para a escola, para o
trabalho científico.
Outro ponto de apoio é o incentivo
à troca com universidades estrangeiras,
a chamada universalizaçãodo conhecimento e da pesquisa.
A Esalq tem convênio com duas
instituições, a Universidade de
Illinois, nos Estados Unidos, e a
de Wagenigen, na Holanda. As
principais áreas de cooperação
são soja e bionergia.

E nessa troca com as universidades
estrangeiras o Brasil tem o
que oferecer?

Sim, o Brasil avançou muito
no desenvolvimento genético.
A genética molecular, por
exemplo, está no mesmo
patamar de países com tradição
no assunto, como os
Estados Unidos. Voltando ao
assunto da formação profissional,
tomamos essa decisão
lá atrás, e isso foi fundamental.
Temos ciência de ponta,
conhecimento no País. Um
exemplo de repercussão mundial
foi o projeto genoma da
Xylella fastidiosa, uma bactéria
que atacava cítrus em geral e
trazia prejuízos ao setor. O trabalho
foi muito importante, reunimos
conhecimento de vários laboratórios
que desenvolviam pesquisas
nessa área, de empresas privadas,
do setor público e, rapidamente,
fizemos o seqüenciamento genético
da praga. O Brasil tornou-se
muito ágil nessa troca de dados,
o que nos dá uma vantagem,
pois pesquisa na área genômica
é muito extensiva. Então, se os
setores colaboram, como aconteceu
com a Xylella, em um,dois anos temos um genoma
completo. Agora, a Esalq é parceira
em dois projetos: o genoma
da cana-de-açúcar e o do
boi. Faz uma parte do processo.

Essa foi a vantagem de centrar
as atividades na parte inicial da
pesquisa?

Foi uma das vantagens, mas temos
outras: ampliamos o nosso campo
de trabalho. Hoje, por exemplo,
temos estudos tanto de genética
molecular como de genética convencional,
em áreas como eucalipto,
soja, cana-de-açúcar, plantas
resistentes a metais pesados
– cádmio e cobre – encontrados
no solo etc.

A área de bioenergia, o destaque do
momento, também tem sido objeto
de pesquisa do departamento?

Sim, temos muitos estudos,
alguns avançados, nesse segmento.
Na obtenção de etanol,
por exemplo, há um professor
do Departamento de Genética
pesquisando a aplicação de
eucalipto na produção de etanol.
É uma coisa bastante nova,
porque as pesquisas com eucalipto
sempre se direcionaram à
produção de papel.
O melhoramento genético da
cana-de-açúcar também está
na pauta da universidade. Háum trabalho muito interessante
do professor Márcio Castro
na área de genética molecular.
Ele está isolando genes da soja
que podem dar mais resistência
à cana. Ainda está em fase de
testes. A idéia é tornar a planta
mais produtiva. Também somos
parceiros de empresas privadas e
públicas no projeto genoma da
cana-de-açúcar.

E na produção de biodiesel?

Os trabalhos mais importantes são
com a soja. Fizemos essa opção
porque o grão está presente em
todo o País, em todas as regiões.
Estamos selecionando genótipos
mais ricos em óleo. Teremos
uma variedade que produz mais
óleo. Eu, particularmente, trabalho
com soja, com toda a parte
de melhoramento de populações.
E a troca de informações aparece
mais uma vez como ponto importante.
A Universidade de Illinois,
por exemplo, possui o maior
banco de germoplasma da América,
com 20 mil variedades. É um
trabalho conjunto e o resultado
traz benefícios a todos.
Hoje, em geral, as variedades de
soja disponíveis no Brasil têm um
teor de óleo de 18% – fica atrás
do dendê, coco, girassol, canola,
mamona, amendoim. Para produzir
1.000 toneladas de óleo são necessários 2.850 hectares. Com a
nova variedade, o quadro muda.

E quanto tempo é necessário para
uma nova variedade chegar ao
produtor rural?
O melhoramento genético de uma
planta leva muitos anos para ser
concluído. É preciso testar todos
os riscos, as pragas, enfim, uma
infinidade de variáveis, a questão
ambiental, tudo tem de ser ponderado,
analisado. Então, leva-se
entre cinco e dez anos para ter
algo em condições de cultivo em
grande escala.

Como o período é longo, há outras
formas de informar o produtor,
prepará-lo melhor? De que modo
a universidade pode colaborar?

A escola tem promovido seminários,
está mais aberta ao público.
Estamos promovendo e incentivando
consultoria para escolas de
segundo grau, principalmente as
de cidades do interior do estado,
que vivem da agricultura.
Outro contato direto se dá por
meio das empresas da Esalqtec,
incubadora criada em 1994. Hoje
quatro empresas estão se desenvolvendo
lá, a Agroprecisa, a
Politrox, a Promip e a Agrosafety.
Operam em áreas bem diferentes,
de agricultura de precisão, gestão
georreferenciada e até análise e monitoramento de pesticidas em
alimentos. A incubadora é um
suporte muito importante para os
futuros empresários. Lá eles testam
o negócio, corrigem os erros,
ajustam as arestas e vão para o
mercado mais certeiros. E os produtores
têm acesso a um serviço
importante, com custo menor. Os
dois ganham.

Sobre o Projeto de Lei de Acessos
a Recursos Genéticos, em discussão
no Congresso Nacional,
as mudanças contribuem para a
pesquisa agrícola?

Esse projeto de lei traz um grande
benefício, que é proteger melhor
nossas espécies nativas, mas também
cria uma burocracia impeditiva,
pois surge mais uma etapa no
procedimento: serão dois cadastros,
um gerido pelo Ministério da
Ciência e Tecnologia e outro pelo
Ministério da Agricultura. Agora
não se pode mais sair por aí coletando
planta para fazer pesquisa;
o processo ficou mais longo, pode
haver repetição dos formulários a
serem preenchidos. Mas são estas
as regras da nova ciência agronômica:
a sustentabilidade, o cuidado
com o patrimônio biológico,
genético do País, as leis de proteção
aos cultivares, os processos de
patenteamento; tudo isso é parte
do jogo. Temos de nos preparar.


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