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Estudo desvenda sociedades marajoaras pela cerâmica

Renato Sanchez

AGÊNCIA USP

[06/03/2008]

São Paulo - Um estudo desenvolvido em parceria pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) e pelo Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP está possibilitando a pesquisadores desvendar aspectos da vida de antigas sociedades do norte do Pará. As chamadas sociedades marajoaras existiram entre 400 e 1400 d.C. e a maioria das informações que se tem sobre elas foi obtida em pesquisas arqueológicas sobre sua cerâmica.

A técnica aplicada na pesquisa, chamada de análise por ativação neutrônica, traz uma nova forma de analisar essas peças de cerâmica: determina a composição química dos artefatos para a partir daí entender aspectos da vida social desses povos. “É um meio técnico que complementa a análise arqueológica convencional e acrescenta elementos para serem estudados”, afirma o pesquisador e professor do IPEN Casimiro Munita.

Ele explica como funciona o processo: “Fazemos uma pequena incisão na peça cerâmica. Recolhemos cerca de 100 miligramas (mg) de pó para análise. Então utilizamos o reator nuclear para bombardear esse pó com nêutrons. Isso faz com que esse material emita radiação gama. Então a partir da análise do espectro dessa radiação podemos determinar a composição físico-química e saber se trata-se de uma cerâmica marajoara original ou uma falsificação”, explica o pesquisador.

Além da originalidade, outras conclusões podem ser obtidas a partir da composição físico-quimica. De acordo com Munita, o cruzamento com bancos de dados permite saber em que região da ilha o artefato foi produzido e até mesmo a quantos graus foi queimado.

Segundo ele, também é possível medir o grau de aperfeiçoamento tecnológico de cada população marajoara comparando a homogeneidade das peças encontradas em dada região da ilha. “Quanto mais homogênea é a produção em uma certa região da ilha, podemos dizer que sua tecnologia é mais avançada”.

Conjugando-se a técnica com o trabalho dos arqueólogos na região, Munita diz ser possível identificar inclusive os deslocamentos populacionais e a organização social no interior desses povos. “Quanto maior a profundidade na qual a cerâmica é encontrada, mais antiga ela deve ser. Logo, se em uma região ele é encontrada em grandes profundidades e em áreas próximas está mais superficial, podemos presumir em que direção essa população se deslocou”, afirma. “Já a organização social nós estudamos com base em objetos que marcam uma certa hierarquia, como as urnas fúnebres”.

De acordo com pesquisador, o estudo confirma que os marajoaras alcançaram um surpreendente avanço tecnológico considerando-se o período em que viveram e as condições precárias de subsistência que a ilha oferecia à época. “Em 1990, um estudo da Organização dos Estados Americanos (OEA) revelou que o solo daquela e região é o pior na América do Sul para fins de agricultura. Por isso é surpreendente que tenham se desenvolvido tanto. E isso justifica o interesse legítimo em buscar mais informações sobre esses povos”, diz o pesquisador.

Para Munita, o trabalho em conjunto com os professores Eduardo Neves e Cristina Demartini (ambos do MAE), demonstra as vantagens de trabalhar em conjunto de pesquisadores de diversas áreas. “É importante que os arqueólogos tomem conhecimento de que as ciências exatas também têm ferramentas importantes para o trabalho arqueológico”, ressalta o pesquisador.

A partir do próximo semestre, Munita será o professor da disciplina de Arqueometria na pós-graduação do MAE, no curso de especialização em Museologia. “O objetivo é mostrar essas ferramentas para o pesquisador e, assim, intensificar a colaboração entre as diferentes áreas de pesquisa”, finaliza.


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