Foi como ver o mar
Débora Rubin
CHAMADA
[11/01/2008]
Todos os dias recebo, e apago, dezenas de e-mails - como todo mundo hoje em dia. Mas como jornalista nascida, criada e mal acostumada com a era digital e com a ampla oferta de releases das assessorias de imprensa, sempre dou uma olhadinha rápida para ver se eles trazem algo de bom. Quando são de empresas, vendem produtos, idéias e serviços perfeitos. Quando são do governo, é uma numeralha sem fim que me faz acreditar que a gente mora num país de primeiro mundo, com gente bem nutrida, feliz, com casa própria e filhos na escola.
No começo da semana, de volta ao trabalho depois de uns dias deliciosos na praia, quase pensando em abandonar a profissão e virar sorveteira só para poder pisar um pouquinho mais naquela areia fofa, estava apagando as mensagens quando achei um “Assunto” que me interessou. Trazia números, claro, porque jornalistas adoram números. Mas dessa vez era diferente. Dizia o release que oito mil crianças paulistas vão, neste verão, conhecer o mar pela primeira vez. Parei para ler. Era um release da secretaria de Estado da Educação de São Paulo. Achei simpático. E confesso que se fossem só 200 crianças incluídas no programa, ia parar para ler do mesmo jeito. Porque, na verdade, achei fofo.
Fiquei imaginando a carinha dessas crianças quando se vissem diante daquela imensidão azul. Ou verde. Ou até meio marrom, dependendo da praia. A sensação que até hoje me surpreende de pisar naquela areia fofinha. O mar beijando nossos pés quando nos aproximamos dele. Quis estar ali com elas, fotografar na minha mente a reação de cada uma (das oito mil!). Ler esse release no primeiro dia de trabalho foi quase como ver o mar.
Diz o texto que as oito mil crianças têm entre nove e onze anos. E que são todos do interior do Estado, de 194 cidades diferentes. Lembrei que foi mais ou menos com essa idade, oito, nove anos, que minhas primas do interior foram para a praia com a gente pela primeira vez. Eu, que já me achava uma expert nos assuntos do mar, ficava esnobando conhecimento sobre o “ir à praia”.
Lembrei também de quando a minha querida amiga Geovana, que trabalha aqui na minha frente, contou que só viu o mar pela primeira vez aos 19 anos. Fiquei chocada! Como alguém poderia demorar tanto assim para conhecer o mar? Quando se nasce em Três de Maio, na fronteira com a Argentina, a léguas de distância de uma prainha, faz sentido a demora. Ela lembra direitinho daquele dia, do cheiro da maresia, da areia fofa e quente e do nome da praia: Albatroz.
No meio do release – sim, li e reli várias vezes o dito cujo – entendi que as crianças vão ficar hospedadas em escolas especialmente adaptadas para recebê-las. Imaginem a farra que a criançada vai fazer, imaginem o clima de acampamento da viagem. Segundo minha única e preciosa fonte de informação – o release – 900 monitores foram treinados para acompanhar as crianças.
Como é de praxe, tem até uma frase da secretária de Estado da Educação ao longo do texto. Maria Helena Guimarães de Castro diz que se trata de “um projeto estimulante, fora da sala de aula”, na qual os alunos “convivem com colegas e vivem novas situações. E, claro, aprendem”.
Sem dúvida, secretária. É esse o tipo de aprendizado que a gente carrega para o resto da vida.