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Se a moda pega

Joel dos Santos Guimarães

EM LINHA

[18/12/2007]

São Paulo – Nas Filipinas, os estudantes universitários costumam tirar a roupa para protestar contra a corrupção que atinge vários setores do país. Meu amigo Zezinho, dono de bar e filósofo nas horas vagas, acha que a população brasileira deveria imitar os estudantes filipinos. E radicaliza:

Como a roubalheira aqui vai do Amazonas ao Rio Grande do Sul, ele entende que o protesto, que já batizou de “o berro do Adão e Eva”, deve durar pelo menos uma semana, período em que essa terra descoberta por Cabral passaria a ser habitada por 180 milhões de peladões.

A nudez, filosofa Zezinho, serviria para identificar a grande maioria dos ladrões e corruptos brasileiros. É que, na sua boa fé, meu amigo entende que só os honestos participariam do protesto. Os honestos, acha ele, não têm o que esconder. “Já os ladrões, os chefes do crime organizado, os sonegadores de impostos, os políticos corruptos não iriam tirar a roupa e se misturar à multidão dos peladões”, diz o filósofo de boteco.

Não entendo bem onde meu amigo quer chegar ao afirmar que corrupto não fica pelado em público. Para ele, a explicação é simples: essa gente sempre tem o que esconder, dinheiro, documentos, notas-frias de venda de boi fantasma, passaporte. Para isso, os corruptos precisam de bolso ou de pelo menos de uma cueca para esconder a grana.

Quem não se lembra da prisão de José Adalberto Vieira da Silva, na época assessor do deputado estadual José Nobre Guimarães, irmão do deputado José Genuíno, com 200 mil reais em uma mala e mais 100 mil reais na cueca.

O meu amigo não conhece as Filipinas, mas não tem dúvidas de que, escondida ou não na cueca, a roubalheira praticada no país descoberto por Cabral é de fazer corar o rosto dos honestos.

Vale lembrar que na semana passada um grupo de estudantes da Universidade das Filipinas tirou a roupa para protestar contra a corrupção e o corte de orçamento para as universidades públicas.

O ato faz parte de uma cerimônia tradicional conhecida como "Corrida da Oblação", numa referência a uma estátua diante do prédio, em Manila, que representa sacrifício e doação pessoal.

A Universidade das Filipinas ficou conhecida pela intensa militância de seus estudantes na década de 70, durante um período de lei marcial no país. Em tempos de democracia, os protestos acontecem num clima mais descontraído.

Depois de ler pela décima vez a matéria sobre os peladões das Filipinas aos poucos clientes que insistem em tomar a décima saideira, Zezinho já tem dúvidas se o protesto contra a corrupção que ele bolou terá sucesso. “Não interessa apostar apenas no sucesso do grito do Adão e da Eva. É preciso saber se ele será honesto. Ou seja, se não haverá nenhum corrupto infiltrado entre os peladões”, questiona Zezinho.

E tome argumentos:

“Veja bem, tem muito político ladrão, tem muito chefe do crime organizado e tem também aqueles que fazem parte do bloco dos corruptos passivos, os tais laranjas. A maioria desse pessoal não tem seus nomes ligados à ladroagem ou ao crime organizado ou à ala dos corruptos que mamam nas tetas do governo”, explica.

Esse pessoal, no entender de Zezinho, pode, na época do protesto, tirar a roupa e sair por aí balançando seios ou o pipi gritando canções de ordem contra os corruptos e a corrupção. Vai saber!

Dúvida cruel do meu filósofo preferido de botequim: “o senador Renan Calheiros com certeza não irá aderir ao protesto, mas, quem garante, que sua ex-namoradinha, a Mônica Veloso não pode aderir ao bloco dos peladões contra a corrupção”.

Zezinho, depois de folhear pela milésima vez a edição da revista Playboy, em que a namoradinha do senador de Alagoas, aparece pelada, filosofa: “ela é realmente um monumento de mulher. Mas será que estaria com essa bola toda se não tivesse confirmado para a Veja o seu caso com Renan e confirmado que quem lhe pagava a gorda pensão era o lobista de uma construtora, amigo do senador das Alagoas”.

Para Zezinho, as coxas de Mônica são magníficas, mas pernas como as dela existem aos milhares no país. Com algumas diferenças, as donas dessas pernas não namoraram com senador e nem usaram expedientes desse tipo para posar nua para revistas ou escrever livros medíocres tendo como pano de fundo um romance com aquele que chegou à presidência do Senado.

O meu amigo entende que a Mônica encheu seu cofrinho usando a arma do oportunismo e que seu ex-namorado foi afastado do cargo e esta sendo investigando pela Justiça e pelo próprio senado. Além disso, Zezinho entende que o livro de Mônica Veloso é um péssimo exemplo para a juventude.

O seu livro chama-se “O poder que seduz”. Ora, vamos e venhamos, só é seduzido quem quer ser seduzido. Ou seja, Mônica não foi seduzida pelo poder, mas foi ela quem seduziu o poder. E, com isso, se arrumou na vida. “Ela mostrou ao Brasil que a nudez é um atalho no chamado alpinismo social”, sentencia meu amigo Zezinho.

Já passa da uma da madrugada, Zezinho pede aos últimos clientes que acabem de beber suas cervejas que ele irá fechar. Um dos fregueses mais antigos do boteco mais democrático da região Oeste de São Paulo pede a saideira. “Tudo bem, eu sirvo. Em troca vocês me fazem uma lista colocando o nome dos políticos não corruptos do país que, certamente, não pensariam duas vezes para aderir ao protesto todo mundo nu contra a corrupção”.

Os dias estão passando e Zezinho ainda não recebeu a lista.

joel@agenciameios.com.br


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