Crianças contra a corrupção
Mariana Braga
CONTAS ABERTAS
[10/12/2007]
São Paulo – Um super-herói que salva o mundo dos indivíduos corruptos, uma sociedade que está de olho nos seus representantes e um político que investe o dinheiro da sociedade em creches e na educação. Essas são apenas algumas das várias idéias para combater a corrupção propostas por mais de 110 mil crianças de todo o Brasil, que participaram de um concurso promovido pela Controladoria Geral da União. O órgão premiará hoje, com certificados e microcomputadores, os melhores textos e desenhos do Brasil que demonstrem como a sociedade pode ajudar no combate à corrupção. Os segundos colocados receberão máquinas fotográficas digitais, doadas pela Receita Federal. O objetivo é desenvolver nos mais jovens o interesse pelo controle social.
Essa é a primeira edição do concurso em âmbito nacional. A idéia surgiu dos bons resultados obtidos com o projeto piloto que mobilizou mais de dois mil alunos em Santo Antônio do Descoberto, município de Goiás. Agora o objetivo é ampliar a experiência por todo o país. “A nossa meta é fazer com que as crianças discutam em sala de aula a importância de participar das questões da sociedade e exercer o controle social”, destaca o gerente de fomento ao fortalecimento da Gestão e Controle Social da CGU, Mário Vinícius Spinelli.
Segundo ele, os próprios técnicos que coordenam o programa ficaram impressionados e emocionados com o retorno dos estudantes e com a percepção dos jovens em relação à prática da corrupção. Em Rondônia, no Mato Grosso e no Rio de janeiro, inclusive, escolas indígenas e de portadores de necessidades especiais enviaram trabalhos, mostrando grande interesse pelo tema.
Ao contrário do que muitos pensam, crianças e adolescentes não estão alheios ao que acontece no país, sobretudo no âmbito político. “A criança possui uma sensibilidade que a permite exprimir nos textos e desenhos o sentimento da sociedade diante da corrupção”, destaca o secretário de Prevenção da Corrupção e Informações Estratégicas da CGU, Marcelo Stopanovski. Segundo ele, a experiência no estado de Goiás deu tão certo, que trechos das redações muitas vezes são incluídos nas apresentações que a Controladoria costuma fazer em outras instituições públicas. “Essa cultura de não aceitação da corrupção e da impunidade deve ser estimulada desde cedo”, ressalta Stopanovski.
Uma pesquisa divulgada na última semana pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) demonstrou que os adolescentes estão cada vez mais sintonizados com os grandes desafios do novo século. Dos cerca de três mil jovens com idade entre 15 a 19 entrevistados, 37% citaram a corrupção e os políticos como o maior motivo de vergonha para o país. Ao responderem a questão sobre qual seria o fator responsável pelos problemas sociais do Brasil, 27% dos entrevistados indicaram em primeiro lugar a corrupção política. Esse número subiu para 35% entre os moradores da região Centro-Oeste, que acompanham com mais proximidade o que se passa na capital da República.
Os resultados do concurso piloto e os trabalhos inscritos no nacional demonstram claramente o engajamento dos mais jovens. “Hoje temos trocas de votos por cestas básicas, dentaduras, cirurgias e até por dinheiro. O que a população não entende é que a escravidão atual vem depois da eleição, com um político que está interessado em olhar para si e não para o todo. Então ficamos quatro anos sem boa educação, saúde, transporte, cultura e etc.”, escreveu Cynthya Christiano, aluna da 6ª série. “Para prevenir a corrupção, devemos acompanhar de perto o destino de cada imposto pago para o governo. Observar onde será gasto, de quanto é preciso e o que será feito com o dinheiro que sobrar”, aconselha Ronesclay Teodoro da 8ª série em sua redação.
Nessa primeira experiência participaram do concurso apenas os alunos do ensino fundamental dos municípios participantes do Programa Olho Vivo, um projeto da CGU que busca capacitar agentes municipais e lideranças locais para o controle das despesas com programas de governo. Os técnicos da controladoria chegam ao município duas semanas antes de iniciar o programa para lançar a idéia nas escolas e despertar o interesse dos professores pelo projeto. “O concurso já mobilizou cerca de três mil professores que desenvolveram a atividade nas salas de aula”, explica Spinelli. Uma comissão formada por docentes e por membros da equipe do Olho Vivo selecionaram os três melhores trabalhos de cada série. Os autores receberam medalhas e certificados.
Dos campeões municipais, serão premiados os vencedores do concurso nacional, um de cada série escolar. Os estudantes que melhor conseguirem retratar a questão da corrupção em desenho ou redação vão receber da um micro-computador e um certificado. “O critério de escolha dos trabalhos não é a qualidade técnica do desenho ou dos textos e sim a idéia que está por trás dele. O que nos interessa é a capacidade de percepção e reflexão das crianças em relação ao tema”, ressalta o gerente da CGU. A cerimônia de premiação hoje em comemoração ao Dia Internacional de Combate à Corrupção (9 de dezembro) nas capitais dos estados de origem dos vencedores.