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Só na melodia

Uxa Xavier

NA DANÇA

[10/12/2007]

São Paulo – Os inventos estão aí para que possamos conhecer, usar e usufruir.
Andando pelas ruas observamos, cada vez mais, pessoas caminhando com seus fones alheias ao entorno. Era assim pelo menos que eu via antes de aderir a esse aparelhinho.

Minha história começa com o furto do meu celular, lá estava eu sem meu aparelho e precisando de um novo. A compra teve todo um ritual com a assessoria de minha filha mais velha, até que me decidi por um que oferecia várias funções e uma delas é o MP3, rádio etc....

Tentei baixar as músicas, mas ainda não consegui então decidi ouvir as rádios enquanto caminho ou ando de ônibus. Aí que começou a minha nova forma de ver algumas coisas que antes achava inútil ou mesmo alienante: trazer uma trilha sonora para o cotidiano cheio de barulhos.

Mesmo sem conseguir baixar as músicas ouvir uma rádio (um invento tão antigo) tem um efeito interessante, pois a trilha é sempre uma surpresa, como a própria cidade, pois não somos nossos programadores e, a cada música, busco na rua um personagem ou mesmo uma situação que tenha a ver com ela. Isso transforma o meu olhar, ele deixa de ser automático para ser curioso.
Vou criando pequenas coreografias com os transeuntes, quando menos espero começo a mudar o ritmo da minha caminhada. Às vezes lentas, outras mais balançadas, como Ray Charles.

O sorriso fica inevitável quando uma música que gosto muito surge inesperadamente e vem uma vontade de cantar junto, o corpo reage, os movimentos ficam fluidos, mas o olhar não desprega da rua, dos sinais, uma questão de sobrevivência...

Conto isso por uma razão: nosso cotidiano é tão pobre, tão previsível, que precisamos de alguns artifícios para suportar ou até mesmo para nos colocar num outro lugar, sair da mesmice... E que não adianta ter uma visão romântica de que em "outros tempos" era melhor. Realmente era, mas agora já não é tanto e é nessa realidade que vivemos. Ouvir música não é alienante, pois os barulhos insuportáveis da cidade nos tiram do lugar e do olhar crítico, eles simplesmente nos massacram e assim adoecemos, por vezes ficamos cegos. Esse é o jeito que vejo e vivo esse invento, e que me deixa curiosa, imaginado o que os outros estão ouvindo o que eles estão sentindo e mesmo imaginando com sua trilha sonora. E só conseguimos pensar e sentir isso quando também entramos para essa turma tão igual e tão diferente ao mesmo tempo. Por isso recomendo usar as novas invenções e também aproveitar aquelas que já estão aí há muito tempo: o rádio, por exemplo.

uxaxavier@uol.com.br


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