Oscar Freire descolada
Cláudia Abreu
COSTURA FINA
[22/11/2007]
São Paulo – A frase não é minha, ouvi de um passante que olhava as vitrines da rua Aspicuelta, na Vila Madalena. Parei, olhei, e acho que concordo com a afirmação: a Aspicuelta pode virar sim uma Oscar Freire descolada. Há três anos trabalho na rua Girassol, também na Vila, e acompanho, de perto e com sacolas, a evolução da via. Lojinhas simpáticas, com vitrines coloridas, mas clean tomaram o pedaço. E mais algumas devem abrir logo mais, pois não faltam construções tomando as calçadas dos pedestres. Mas tudo bem, essa falta de educação com o outro é generalizada na cidade. Falemos das lojinhas.
O movimento maior, pelo menos este ano, aconteceu entre as ruas Harmonia e Girassol. No início de 2007 eram, praticamente, duas lojas de roupa e outra de bolsas, que dividiam espaço com lojas de móveis e um salão de cabeleireiro descolado – é claro. Mas, aos poucos, o cenário está mudando. Contei mais três empreendimentos até agora. Uma loja simpática, com rendas do Nordeste, a Refazenda, uma outra de um nome que não conheço tanto, Mônica Costa, e o bravo Ronaldo Fraga. A loja de Ronaldo, como todas as suas coleções, é alegre, divertida, tem uma vitrine convidativa, inspiradora. O conjunto do trecho sugere passeio de fim de tarde com as amigas e um gran finale no café da esquina. Nem parece São Paulo e fica longe do agito que toma as noites da Vila Madalena.
Mas o bom de tudo isso – e é esse o motivo do texto –, é que as lojas de rua estão de volta. Pouco a pouco estão voltando a fazer parte da vida dos paulistanos, paulistas e tudo mais, pois sotaque é o que não falta nesse pedacinho da cidade. Gaúcho, mineiro – o meu, nordestino e estrangeiro. Ao contrário dos shoppings, onde é sempre dia e a luz branca cega os olhos, as lojas de rua arejam a cabeça. Não têm a pressa dos shoppings, não nos forçam a comprar, conquistam. As vitrines não estão encostadas uma nas outras, oprimindo: “se não entra aqui, entra na outra”. Loja de rua, na minha opinião, tem o desafio de conquistar devagar. Você passa, dá uma olhadinha, espia o terreno. Depois volta, olha de novo e, se o salário permitir, compra. Pois, como a Oscar Freire, os precinhos são, digamos, salgadinhos. Mas, com certeza, se for bem pensada, a compra vale a pena, ainda mais quando se lembra que a loja de renda tem todo um projeto social por trás das peças que chegam aqui. Que o Ronaldo Fraga trabalha com cooperativas mineiras de costura.
Essa é outra característica interessante da Vila Madalena. O bairro virou sinônimo de responsabilidade social, ou melhor, consumo responsável. Tem desde os bares que ajudam dando parte da taxa de serviços para projetos sociais, até o restaurante do projeto Aprendiz até lojinhas que comercializam roupas e peças de decoração produzidas dentro do conceito de responsabilidade sócio-ambiental. É moda descolada, com charme, com responsabilidade. Talvez uma tendência que veio pra ficar, o que também podia acontecer com as lojas de rua, que, claramente, estão dando vida nova ao bairro.
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