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A saga de Rashida

Débora Rubin

ANBA

[21/11/2007]

São Paulo - Ao todo, foram cinco mudanças. Aos 77 anos, Rashida Qassem Mahmoud já deixou para trás a Palestina, o Líbano, a Síria, o Iraque e a Jordânia. De seu país saiu ainda adolescente, quando da criação do Estado de Israel. No Líbano ficou pouco tempo. Fez a vida na Síria, onde se casou, teve dois filhos e, aos 29 anos, ficou viúva. De lá, foi tentar a vida no Iraque. Em 2003, seu destino coincidiu com o dos demais palestinos que também vieram para o Brasil: fugiu do país invadido pelos americanos e foi viver em um acampamento no deserto da Jordânia.

Nos quatro anos no campo, passou por duas grandes provações. A primeira foi viver longe da filha e dos quatro netos, que foram para outro campo de refugiados. A segunda foi ver o filho de 42 anos morrer. "Morreu de nervoso", resume. Ou de desgosto. Teve um ataque cardíaco ao saber que não estava incluído no grupo que ia ser recebido pelo Canadá.

Pequena, porém robusta, Dona Rashida carrega no corpo os capítulos de sua própria história. As marcas das andanças e dos percalços estão expressas em seu rosto abatido e na boca já quase sem dentes. O véu que esconde os cabelos deixa o azul dos olhos em evidência. "Quando fiquei viúva, muitos homens quiseram casar comigo", gaba-se, com um brilho de mocidade nos olhos.

Risonha, divertida e toda falante, Rashida chegou ao Brasil faz uma semana. Foi a última a deixar a o campo de Ruweished, na Jordânia, e a última a chegar no Brasil. Queria esperar seu clã para virem juntos. Com ela, veio a filha, os quatro netos, as esposas de dois deles, e bisneta, a pequena Nivin, que fez dois anos um dia depois de chegar ao país. Quando questionada se topa dar uma entrevista – após quase trinta horas de viagem – ela responde: "Já estou acostumada. Os jornalistas brasileiros que me entrevistavam no campo diziam que iam por minha foto em todos os jornais do país".

Vir para o Brasil gera sentimentos conflituosos para Rashida. Além de ser mais uma mudança, é a primeira vez que ela pisa em um país não árabe, com uma língua distinta. "Estou muito triste. Na minha idade não é fácil imigrar para um país tão diferente. Vou conseguir aprender a sua língua? Vou conseguir me adaptar?" questiona. "No Iraque eu tinha aposentadoria, cesta básica todo mês", recorda.

"Mas venho tranqüila. E deixo com Deus. Afinal, o mais importante nós vamos ter aqui no Brasil: a paz". Em questão de segundos ela limpa as lágrimas, abre um largo sorriso e conclui: "Se eu consegui criar dois filhos sozinha quando ainda era nova, hoje, mais madura, vou conseguir superar tudo isso".


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