busca

ok

A 'Palestina brasileira'

Débora Rubin

ANBA

[21/11/2007]

O Rio Grande do Sul é o estado brasileiro que concentra a maior comunidade de palestinos e descendentes. Não por acaso é lá que estão vivendo 52 dos 108 refugiados palestinos que estão no Brasil desde setembro, acolhidos pelo governo brasileiro e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. A vida na 'Palestina brasileira' e o apoio da comunidade gaúcha é o tema da terceira matéria da série sobre os palestinos que a ANBA publica.

São Paulo - Muita fé no trabalho. É essa a recomendação que Ahmad Ali, de 74 anos, dá aos refugiados palestinos recém-chegados ao Rio Grande do Sul. Foi para lá, no finzinho do Brasil, que seu Ali se encaminhou fugindo dos conflitos na Palestina no final dos anos 50. Como ele, outros tantos palestinos escolheram o estado para tentar uma nova vida. Hoje, calcula-se que 30 mil palestinos e descendentes vivam nos pampas. Para Ali, esse número pode ser bem maior, em torno de 50 mil. "Porque muitos se afastaram da comunidade e fica difícil saber ao certo", explica. É nesse pequeno pedaço de Palestina dentro do Brasil que 52 dos 108 refugiados que vieram para o país estão vivendo.

O grupo que seguiu para o Rio Grande do Sul está distribuído por seis cidades. Sapucaia do Sul, Pelotas, Rio Grande, Santa Maria, Venâncio Aires e Porto Alegre são municípios que já têm comunidades de palestinos. Em Sapucaia do Sul, fica a sede da Sociedade Árabe Palestina da Grande Porto Alegre, uma das organizações quem vêm acompanhando de perto a recepção e integração dos refugiados.

No Rio Grande do Sul, a ONG parceira do ACNUR é a Associação Antônio Vieira (ASAV). Segundo Karin Kaid Wapechowski, coordenadora da ONG, a comunidade palestina local vem ajudando muito na recepção dos novos moradores. "Muitos nos ajudam com a tradução, alguns comerciantes oferecem empregos. Eles vão ser fundamentais para essa integração", acredita.

Para Fátima Ahmad Ali, presidente da Sociedade Árabe Palestina da Grande Porto Alegre, existe um compromisso dos que já estão estabelecidos no país com os que chegam. "A responsabilidade é do governo brasileiro e da ONU. Mas nós, enquanto árabe-palestinos, somos solidários aos refugiados e temos o compromisso de ajudá-los", diz. Em todas as recepções dos refugiados no aeroporto, havia algum representante da Sociedade. Todos foram recebidos com jantares e atividades na sede da organização. "Agora estamos preocupados em inseri-los no mercado de trabalho", conta.

Segundo Karin, da ASAV, seu Ibrahim, um homem de 50 anos, já está trabalhando na loja de um patrício em Venâncio Aires. Outra menina, Randa, de 24 anos, preferiu esperar um pouco mais para aprender melhor o português para só então topar um emprego que lhe foi ofertado. "A maioria já se vira muito bem, pega ônibus, vai ao supermercado e compra os itens que já conhecem", diz Karin.

"Nossa preocupação agora é alertá-los sobre o futuro. Isso porque passado o primeiro momento, de lua de mel com o país e com as cidades, começa a cair a ficha e vêm as reclamações", conta a coordenadora do programa. Uma das preocupações de Karin e sua equipe é com o orçamento doméstico. O dinheiro varia de família para família. O chefe de família recebe um salário mínimo e os demais membros recebem porcentagens desse valor. "No geral, eles fumam demais. Só que aqui o cigarro é caro. Vai chegar um momento em que eles vão ter que pensar se querem comprar cigarro ou comida", acredita ela.

A equipe da ONG acaba se envolvendo também em questões mais particulares, pessoais, como a das famílias que passaram os últimos quatro anos e meio separados. No Rio Grande do Sul há pelo menos dois casos de homens que viviam no campo de Ruweished, no meio do deserto da Jordânia, enquanto suas esposas viviam com os filhos em outro país. E há também o caso de dona Rashida, que ficou sozinha em Ruweished e foi a última a vir para o país porque estava esperando a filha e os netos, que viviam em outro campo de refugiados (leia a história dela abaixo).

Issam Mohamad é um dos que só reencontraram sua família horas antes de embarcar para o Brasil. Ele ficou cinco anos separado da mulher, Hannah, e dos filhos Haisan, Mahrussa e Diana. A mulher e os filhos viviam no Egito e Mohamad, no campo de refugiados. Ele também vivia no Egito, mas foi tentar a vida no Iraque e, seis meses depois, veio a guerra de 2003 e ele teve de fugir por causa das perseguições. O reencontro marca também o recomeço. "Queremos uma vida nova porque a que conhecemos é muito dura", disse ele à ANBA no dia em que chegou ao Brasil, no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.

No Rio Grande do Sul há um grupo de solteiros, alguns deles bem jovens, que estão sedentos por oportunidades e novidades. Um deles é Issam Ali Hassam, de 25 anos. Seu desejo é fazer uma faculdade no Brasil. Em 2003, ele estava se preparando para cursar Computação na universidade, em Bagdá, mas teve de abandonar tudo e fugir. A família ficou lá. Ele pretende matar a saudade via internet.

Festas, língua e cultura

A Sociedade Árabe Palestina da Grande Porto Alegre existe desde os anos 60. É ali que a comunidade se encontra para festejar, confraternizar, mostrar um pouco da cultura palestina aos brasileiros e, principalmente, preservar a identificação cultural. A presidente da organização, Fátima Ali, é filha de seu Ali, o personagem que abre essa matéria. Para ela, a Sociedade permite que crianças e adolescentes da terceira ou quarta geração mantenham contato com as origens de seus avós ou bisavós. E também que não árabes conheçam mais sobre esse universo.

Existem mais seis Sociedades espalhadas por outras cidades gaúchas com grandes colônias. E há ainda a Federação Árabe Palestina (Fepal), que congrega todos esses grupos. A sede da Fepal também fica no Rio Grande do Sul. Agora, para o dia 29 de novembro, dia Internacional da Solidariedade ao Povo Palestino, a Fepal pretende fazer uma homenagem aos novos moradores do país.

Chuí

A colônia palestina no Rio Grande do Sul hoje está bem espalhada pelo estado, incluindo nas cidades grandes e na capital Porto Alegre. No entanto, cidades como Chuí, na fronteira do país, ficaram marcadas pela forte imigração árabe-palestina. Segundo Fátima Ali, uma das razões era o forte comércio das fronteiras, ramo para o qual quase todos os árabes iam quando chegavam ao país. "Mas hoje é diferente. As segundas e terceiras gerações foram para as universidades, são profissionais liberais e acabaram indo morar nos grandes centros", diz ela, que se formou enfermeira.

Ainda assim, Chuí chama tanta atenção que virou até tema de tese de doutorado nas mãos da antropóloga Denise Jardim, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Em 2005, ela entrevistou 60 pessoas de dez famílias da cidade. Lá, a pesquisadora percebeu a necessidade dessas famílias em manter as tradições – nem que seja apenas assistindo aos canais árabes exibidos pela TV a cabo.


Rua Heitor Penteado, 1900 - sala 32A - 3º andar

São Paulo – SP - Cep: 05438-300

Tel. (11) 3151 3416 e 3258 2174