O be-a-bá do português
Débora Rubin
ANBA
[19/11/2007]
São Paulo - Ghada Harati, libanesa que vive há 24 anos no Brasil, coloca em uma lousa branca todos os itens que compõem a cozinha de uma pessoa. As palavras pia, mesa, cadeiras, fogão são prontamente copiadas pelos cinco atentos alunos. Ghada pede que eles adivinhem o que é cada um dos itens. Depois, pede que repitam as palavras, em coro. Logo começam as dificuldades. Pia vira “paia”, por influência do inglês, acredita a professora Ghada. Falar “geladeira” é um desafio – alguns dizem “gueladeira”, outros tentam juntar tudo e sai algo como “gedera”.
“O som do E não existe em árabe. Até para dizer 'eu' fica difícil”, diz Ghada (pronuncia-se “Rada”, som que os brasileiros não conhecem). “Liquidificador” tem que ser dividido em duas partes para simplificar a compreensão.
Ghada se reveza com a professora Fátima Shaker Agha, de origem síria, nas quatro aulas de português que são dadas três vezes por semana no salão da Catedral de Mogi das Cruzes. O método adotado, por hora, é o de introduzir um vocabulário básico a partir de aulas temáticas. No dia em que a ANBA acompanhou a aula, a professora falou sobre tudo o que há dentro de uma casa.
Para facilitar, os alunos escrevem na grafia árabe a palavra em português. Em alguns momentos, a professora se dá conta de que algumas palavras dos palestinos não são as mesmas que ela aprendeu no Líbano. “No Iraque, ele têm palavras de origem persa, turca e muito do inglês”, explica Ghada. Quando eles não se entendem, a professora faz um desenho na lousa e a dúvida é resolvida.
Os alunos de Ghada e Fátima penam para aprender – a língua é muito diferente, tudo completamente novo. Mas mesmo com poucas semanas de Brasil, quase todos já sabem o que significa ‘obrigado’, ‘boa tarde’, ‘almoço’, ‘eu’, ‘bebê’, ‘aula de português’ e ‘jornalista’. Os mais jovens montam frases inteiras como “eu jogo bola quatro vezes por semana”. Quem já tem noções do inglês tem mais facilidade por causa da grafia.
A aula de português é obrigatória para os refugiados. É a contrapartida exigida pelo ACNUR e pelas ONGs parceiras. No começo do ano, todas as crianças e adolescentes vão para a escola.