Olha a moda, olha a moda
Cláudia Abreu
COSTURA FINA
[01/11/2007]
São Paulo – Sábado de sol na capital paulista. Saio às compras, é véspera do aniversário da minha filha e ainda faltam algumas coisas para complementar a decoração simples e criativa (eu espero!!) que pretendo fazer. Vou usar chita, laços de fita etc. Em São Paulo, o destino dos pais que querem fazer uma festinha simpática e barata é um só: 25 de março e arredores. A questão é disputar o espaço com centenas, milhares de pessoas que vão até esse paraíso – que está mais para inferno nessa época do ano – por vários outros motivos.
Pois bem, ainda em pé de animação, desço a ladeira Porto Geral ouvindo uns gritos de: olha a moda, olha a moda. Achei interessante o tom e fiquei procurando a voz que me chamava para olhar a moda no meio daquela confusão toda, entre carros, camelôs, sacoleiras e gente como eu, à procura de chita e fita. Segui desesperadamente o som e encontrei uma mulher dos seus 40 e poucos anos, encostada num prédio, com uma sacola cheia de sutiã de silicone. Lembrei do meu avô que costumava repreender os gritos dos netos com a seguinte frase: que goelinha, menina!! Pensei a mesma coisa: que goela, minha senhora.
Mas, o mais interessante era o tom enfático com que a moça anunciava a moda. Ok, no meio daquela confusão não podia se esperar grande coisa, mas um sutiã de silicone, vendido a preço de banana, foi demais. Eu, confesso, esperava encontrar algo curioso – coisa que tem aos montes na 25 – quando ouvi a frase, mas não era nada disso. Ali não tinha moda, tinha um sutiã já bem conhecido do público. O pior é que acho que o negócio pegou mesmo. Já quase na 25, no final – ou será o começo da ladeira - ouço novamente os gritos de: olha a moda, olha a moda. Mulher empenhada e otimista que sou decido, de novo, seguir o som para saber onde é que ele vai me levar.
A segunda opção também estava ali, no meio da rua, encostada num prédio, se estapeando para conseguir espaço na calçada e nos obrigando a dividir espaço com os carros. Era um rapaz com muitas bolsas, as gigantes que mencionei no texto anterior. As peças eram em verniz, coloridas – verdes, amarelas, azuis, pratas e douradas. Refletiam a luz do sol, batiam no rosto das pessoas, mas estavam lá, marcando território como ninguém. E, de certa forma, dando mais sentido ao anúncio de moda. Copiado, é claro. Não sei de quem, provavelmente um grande nome europeu, americano ou até mesmo do Brasil, lançou a tendência. A 25 deglutiu, digeriu e colocou, literalmente, na rua. E o camelô está lá, talvez, de alguma forma, cumprindo um papel de disseminador de moda: olha a moda, olha a moda!! Talvez fortalecendo outras cadeias não tão produtivas...
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