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(Re) aprendendo a somar

Débora Rubin

CHAMADA

[25/10/2007]

São Paulo – Aos 28 anos eu decidi que vou virar “acionista”. De que, de quem, de qual setor? Não faço nem idéia. Comecei a pesquisar o assunto agora. Já li ‘trocentos’ textos, todos muito parecidos, sobre como dar os primeiros passos no maravilhoso, e misterioso, mundo da Bolsa de Valores. Mas devo confessar que tal iniciativa me faz tremer, sofrer, quase me faz voltar à terapia. Ter que pensar em números, fazer contas e, o pior, acreditar que não há mistério na matemática, que dois mais dois de fato são quatro, é o tipo de coisa que remonta à minha infância, ao meu histórico problema com números.

O que nenhum desses textos me disse é justamente como ultrapassar essa barreira psicológica, esse medo nato que me faz correr da porcentagem. Ainda assim, decidi: não sou um rato! Sou uma mulher que só não sabe somar o rendimento de um fundo e subtrair pela taxa de administração e pelo imposto de renda para ver se ele vale a pena.

Mas o medo que me fez ficar na poupança até hoje foi vencido. Me muni de revistas que me prometiam fazer o salário render e do Guia Exame de Investimentos. Li tudinho. E até cheguei a acreditar em alguma coisa. Larguei mão de ser conservadora – para usar os termos corretos de quem trata o tema – e decidi diversificar (viu, já estou até falando como esses consultores das revistas). Mas como não tenho paciência para lidar com a gerente do meu banco, e nem ela comigo, virei uma rata de fundos de ações via Internet. Com algumas dicas de meus colegas jornalistas que cobrem a área, resolvi finalmente arriscar.

Esse blá blá blá todo aí acima é só para dizer que o meu medo da matemática pode ser uma coisa meio minha. Mas sei que muita gente, a grande maioria, talvez, tem essa mesma resistência. Mas, sem querer cair naquela mesmice de por a culpa em professor ou escola, sinto que me faltou ao longo da vida escolar uma espécie de “educação financeira”, algo que conecte a matemática a esse mundo do “como fazer o dinheiro render”. No meu tempo, educação financeira para criança se resumia a um porquinho cor-de-rosa. No máximo a uma caderneta de poupança.

Não sei como são as escolas hoje, e acredito que muitas façam isso, mas essa temática não deveria fazer parte do ensino de matemática? Há alguns (bons) anos atrás eu acharia isso tudo uma grande besteira: para que fazer uma criança pensar sobre como ganhar, juntar e fazer render o dinheiro? Afinal, criança tem que brincar. Mas acho que deve existir um caminho lúdico, divertido, para ensinar finanças aos pequenos. Pois hoje, adulta, sinto falta de não ter estudado isso tanto quanto por não ter estudado inglês desde cedo. No auge da minha aborrecência, achava um absurdo existir um jogo chamado “Banco Imobiliário”, cujo único objetivo era “incutir a essência da selvageria capitalista” na cabeça de adolescentes. Eu não jogava.

Pois devia ter jogado. Se tivesse comprado vários apartamentos na Vieira Souto naqueles tempos (era o endereço mais valorizado do jogo), talvez hoje não sofresse tanto com as minhas contas mentais. Devia ter brincado de acionista também. Existe jogo disso? Afinal, se vamos todos ser despejados nessa “selvageria” quando adultos, por que não aprender a lidar com ela?


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