Guerra das agulhas
Cláudia Abreu e Débora Rubin
BRASILEIROS
[18/10/2007]
São Paulo – O ano era 1969. O desfile com título pomposo, Os quatro grandes da moda, tinha sido pensado para ser um dos eventos mais importantes daquela década. Dener, Clodovil, José Nunes e Guilherme Guimarães, o Gui Gui, apresentariam suas coleções. Para fechar o evento, Valentino, que desfilava no Brasil pela primeira vez. Uma noite glamourosa, mas que acabou em confusão entre os dois principais nomes da moda brasileira daquela época: Dener e Clodovil. Os dois discutiram do início ao fim e o ápice das farpas foi quando Clodovil rasgou o vestido da noiva de Dener, que não pode entrar na passarela. A imagem que ficou da noite, como mais tarde relatou Clodovil, foi a das modelos de Valentino paradas, estarrecidas, esperando para desfilar enquanto os dois se alfinetavam.
A cena dá o tom do que a Era Dener-Clodovil representou: uma guerra declarada que confundia a sociedade e até a mídia. Por fim não se sabia se a rixa entre os dois era real ou apenas ficção, ou até mesmo uma bem sucedida estratégia de marketing para alimentar as colunas sociais dos jornais. Mas, deixando de lado os paetês e tafetás que voavam quando os dois se encontravam, Dener e Clodovil colocaram o personagem do costureiro de alta-costura, criado na França ainda na segunda metade do século XIX, na vida dos brasileiros da década de 60. Espanaram o pó das casas de costura afrancesadas que existiam na época no país, como a Casa Canadá e a maison Madame Rosita. Não perderam a referência de gênios da moda mundial, principalmente Balenciaga, mas, pela primeira vez, as roupas da alta-sociedade tinham brasilidade. Os concursos como o Agulha de Ouro, os desfiles da Fenit, feira do setor têxtil, e da Rhodia ganharam importância e as coleções, nomes nacionalistas: Linha Café, Coleção Colonial, Candomblé.