Pedras no caminho do agronegócio brasileiro
Geovana Pagel
AGÊNCIA AMAZÔNIA
[31/08/2007]
São Paulo – Com um terço das reservas de áreas agricultáveis do mundo, o Brasil é um forte candidato a celeiro mundial. E para garantir esse futuro promissor o agronegócio brasileiro, que já é responsável por 33% do Produto Interno Bruno (PIB) e 42% das exportações, precisa enfrentar e minimizar problemas como concentração de terras, grilagem de áreas preservadas e condições precárias de trabalho em algumas regiões.
De acordo com o presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young Silva, "há uma corrida internacional dos cientistas, Ongs e governos em busca de sustentabilidade para reverter as terríveis consequências do aquecimento global". Segundo ele, se o Brasil quiser chegar na frente, precisa apertar o passo e retirar algumas pedras do caminho do agronegócio.
"Grande parte dos trabalhadores que fazem colheita não mecanizada de cana-de-açúcar estão expostos a condições precárias de trabalho. Somente em São Paulo foram registradas 18 mortos em canaviais nos últimos três anos", disse Silva durante o 6.º Congresso Brasileiro de Agribusiness (CBA), realizado pela Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), nos dias 27 e 28 de agosto, em São Paulo.
Outro exemplo citado por Silva é o problema da má distribuição de terras e o êxodo rural. "A concentração de terras é muito grande e a mecanização crescente, que tem seu lado bom, é claro, mas acaba mandando trabalhadores rurais para as favelas", explicou.
Silva também falou da importância estratégica do etanol e da cautela necessária em relação às áreas destinadas para sua produção. "É uma nova fronteira que se abriu para o combustível renovável. Mas é preciso observar até onde vai a oportunidade da expansão dos canaviais brasileiros que contribuem para empurrar a pecuária para áreas de preservação natural", observou. Segundo ele, cerca de 70% do corte da floresta ocorre para formação de pastagens.
Silva contou que recentemente viajou para Santarém, no Pará, e durante um sobre-vôo pela região vizualizou, no meio da floresta Amazônia, centenas de hectares da União desmatados para plantar soja. "O grileiro responsável foi processado, mas subornou um juiz e foi liberado", contou.
Na Amazônia as terras são mais produtivas no curto prazo. "Nas áreas desflorestadas da Amazônia, à longo prazo, os trabalhadores vão embora, o solo perde a fertilidade e a economia local despenca". Isso sem contar que a qualidade de vida de uma família que vive numa área depredada é inferior a de uma que vive na floresta intacta.
De acordo com Silva, o manejo florestal é o ideal a longo prazo e totalmente diferente do sistema predatório. "Dentro de uma visão sustentável é fundamental preservar a floresta. Uma floresta manejada gera lucro, riquezas e se preserva".
Durante sua apresentação no 6º CBA, Silva também observou que os aspectos favoráveis do agronegócio são inúmeros e que a solução é a união entre os produtores na busca da superação dos problemas que ainda impedem a sustentabilidade de todo o setor. "Não podemos dizer que todo o empresário é sustentável, assim como não podemos dizer que todo agronegócio é predatório. É dessa nova liderança, disposta a ouvir os problemas e buscar as soluções, é que o Brasil precisa", destacou.