As vias fechadas da América Latina
Débora Rubin e Geovana Pagel
BRASILEIROS
[30/08/2007]
São Paulo - O Brasil se comunica mal com seus vizinhos. E uma das razões, talvez a mais séria, é a falta de integração dos meios de transporte. Hoje, os acessos são essencialmente rodoviários. O maior ponto de ligação é com a Argentina, seu principal parceiro de Mercosul – são 11 elos rodoviários mais uma conexão ferroviária. Com os demais países, sobretudo ao norte, são poucos acessos. Para se chegar ao outro lado do continente, no oceano Pacífico, não existe nenhuma maneira eficiente. Quem precisa chegar do lado de lá, se aventura pelas estradas (leia box ao lado).
A ligação com o Chile, país com o qual o Brasil não faz fronteira, seria fundamental para o Brasil. Hoje, em tese, é possível chegar do lado de lá via trem, mas as condições da estrada de ferro são ruins e há problemas de variação de bitola. Essa conexão férrea, apelidada de Ferrovia Bioceânica, está nos planos do governo Lula, segundo o diretor de planejamento do Ministério dos Transportes, Francisco Luiz Baptista Costa. “É preciso ver contratos, direitos de passagem, entre outras coisas. Mas essa conexão com Chile foi até acordada na conversa do Lula com a presidente Michelle Bachelet.”
Chegar até o Pacífico com uma logística mais barata que a atual colocaria o Brasil em melhores condições para ser competitivo junto à Ásia. O mesmo aconteceria com Chile e Peru em relação ao mercado europeu e africano. Além disso, uma melhor conexão entre os países sul-americanos melhoraria a economia na região. “A Integração é fundamental, principalmente para incrementar o comércio na América do Sul, que hoje se resume a Brasil-Argentina. É importante até para brigarmos em conjunto, como um bloco”, acredita o professor da FGV-SP, Manoel de Andrade e Silva Reis.
Em 2000, foi criado um grupo que reúne representantes de infra-estrutura de doze países da América do Sul. A idéia é debater formas de ampliar esses canais de integração e viabilizá-las junto a financiadores como o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Trata-se do IIRSA – Iniciativa para Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana. O grupo tem 355 projetos, sendo 31 prioritários. Muitos dos projetos previstos pelo PAC e pelo PNLT constam também na IIRSA, como o ferroanel em São Paulo. A agenda de trabalho para essas obras mais urgentes começou em 2005 e vai até 2010, com um investimento de US$ 6,4 bilhões. No entanto, até agora, apenas dez estão em andamento.