A bunda que pensa
Uxa Xavier
NA DANÇA
[21/08/2007]
São Paulo – Domingo modorrento, zapeando pelas imagens, me deparo com Rita Cadilac, no Documenta Brasil no SBT. Uma mulher sem maquiagem contando sua trajetória de mocinha ingênua do subúrbio carioca ao mulherão que abala o Carandiru e traz alegria para os homens encarcerados, com todo o respeito. Se Nelson Rodrigues estive vivo...
Passeando pela vida desta mulher vemos a moral insuportável que o corpo carrega. Corpo puro, corpo casto ou corpo produto, como sempre o corpo carregando o peso do inconsciente.
E ela explodiu junto ao único comunicador essencialmente brasileiro: Chacrinha que a burguesia intelectualizada assistia pela TV da empregada, afinal ele não era um exemplo de inteligência... Até Gil fazer uma música e iconizá-lo aí tudo de bom..... E lá estava Rita Cadilac rebolando na TV, precurssora de Tchan e outros mais.... Que mulher imoral....
O tempo passa, a moral vai mudando e Rita Cadilac continua rebolando....
Chacrinha vai para o céu e suas chacretes tem que rebolar em outros palcos.
Tive uma querida companheira de aula de dança que foi chacrete, sempre achei ela corajosa e divertida, parece que esses são os atributos necessários para ser chacrete.
Mas voltando à Rita, vedete contemporânea, que dos palcos da TV Globo deve ter andado muito por esse país fazendo seus shows. Mas dois episódios da vida desta mulher me fizeram pensar – e muito. A força dela tendo o corpo como meio comunicador uma pessoa que tem a coragem de dançar em Serra Pelada para sei lá quantos mil homens, pra mim é “A Mulher”. Ou o depoimento de Drauzio Varela falando que, quando ela entrava no pátio do Carandiru, podia ouvir uma mosca de tanto silêncio. Isso é um poder que poucos tem, poder de mobilizar a atenção e de fazer seus movimentos com tanta naturalidade que ninguém potencializa um lado maldoso. Homens encarceirados, eu passo longe....
Quem trabalha com corpo sabe desse poder, mas mesmo assim poucos podem fazer o que ela faz, quando chamamos “Estrela” é a pessoa que tem um brilho diferente que se destaca no meio do céu. Mobilizar uma multidão não é para todos e com o corpo então... A força está na espontaneidade ela mesma diz: “eu ia fazendo e dava certo”.
Não teve mestres importantes de dança, sua mestra foi Rogéria, outra “Estrela” corajosa. É muito bom quando saímos do nosso “centrinho” de saberes e nos deparamos com outras vidas tão belas onde o fazer é simples, é só fazer... Onde o discurso do corpo que pensa – e pensa mesmo – fica tão enaltecido que acaba deixando de “fazer-pensar”.
Quando Rita diz que ela só tinha o corpo para trabalhar é lindo!!! E mais genial quando ela diz: “Rita Lee fala que sou a única bunda que pensa”. Não é a toa que os homens beijam sua bunda com tanto respeito. Pra você Rita um beijo na sua bunda-coração.
uxaxavier@uol.com.br