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O que passou, o que vem, o que fica

Cláudia Abreu

COSTURA FINA

[14/08/2007]

São Paulo – Fim de semana serve para passear no parque, viajar, arrumar gavetas, organizar a semana, a vida. Ainda não tenho certeza, mas acho que sou uma daquelas adeptas tortas do Feng Shui. Não sigo tudo o que diz a filosofia chinesa, mas arrumar gavetas, principalmente as de roupas, me tranqüiliza, me da paz, ajuda a ter clareza. Pode parecer bobagem, mas é isso mesmo, digamos que é esse o meu modus operandi. Separar as peças por cores – isso é nóia para muitos –, dividir os espaços e encontrar as histórias perdidas, entulhadas no fundo de gavetas, apertadas no canto do armário. Exige um silêncio corajoso e um desprendimento virtuoso.

Como a moda é cíclica, a gente vai encontrando coisas que não voltarão mais, outras que ainda têm futuro e algumas que ficarão nos nossos armários eternas enquanto durarem. Essas últimas são as peças curingas, pode ser uma calça jeans, uma camiseta, uma bolsa, um vestido ou um tênis. Elas, para nós, nunca sairão de moda. Pode ser de uma cor estranha, que não aparece nem na listra das peças das novas coleções, mas, mesmo assim, a gente gosta e continua usando por muitas e muitas estações. Estão ali, nos fazem sentir bem, trazem boas lembranças, bons cheiros, outros amores.

As peças que vão embora são aquelas que, geralmente, a gente compra por impulso, numa dessas promoções de grudar os olhos na vitrine, comuns nessa época do ano. Entra na loja e, claro, a vendedora jura que é o melhor negócio que você pode fazer em toda a sua vida. Diz que a peça é um sucesso e faz a gente acreditar que é um das que se encaixam na categoria eternas enquanto durarem. Bom, logo a gente percebe que não era assim, que a escolha foi influenciada pelos 50 por cento de desconto e que o destino futuro, com certeza, será uma daquelas sacolas de final de ano com a etiqueta doação. Podem ter tido um papel importante, mas foi só numa noite. Passou, vai feliz para a tal sacolinha.

E o que vem? Essa é uma das vantagens do meu Feng Shui torto: abrir espaço para o novo entrar. Entrar e, de preferência, arrasar. Cabides e gavetas vazias fazem a gente pensar. Pensar e planejar o que poderia preencher esses espaços. E acho isso bom. Não é o consumismo puro e simples, aquele que dá um prazer só na hora. Trata-se de um ato pensado, que analisa os custos e benefícios da nova aquisição. Os prazeres e dissabores que a compra pode trazer. Fiz isso com um sapato. É, sim, com um simples sapato. Saíram dois modelos do armário e entrou um novo. O novo, não era um Manolo, o valor nem chegou perto. Mas, mesmo assim, a compra foi pensada.

Antes de comprar o tal sapato, olhei todas as peças do meu armário, avaliei as que poderia usar com o novo modelo, as cores, a flexibilidade. Depois de todos prós e contras, conclui qual modelo seria, digamos, um bom investimento. E moda é assim, temos de comprar o que nos dá prazer, quando nos dá prazer, claro. Mas vale a pena pensar antes de levar uma peça pra casa. E sabe por qual motivo? O prazer não será mais àquele que dura somente até a chegada ao carro, estará presente todas às vezes que você usar o modelo. E vai dar uma dorzinha quando a peça estiver próxima do fim, ficará aquela vontade de comprar outra igual, mandar fazer...

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