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“Se não me quiserem como imperador, serei professor”

Débora Rubin

CHAMADA

[02/08/2007]

São Paulo - Educação era uma das prioridades de D. Pedro II. Foi o que eu descobri lendo uma biografia do monarca durante as minhas férias. Confesso que fui surpreendida por essa faceta do imperador. Eu lembrava vagamente do perfil de Pedro d’Alcântara, de ser amante das ciências, um intelectual, algo nessa linha, mas nunca tinha ido muito além dos resumos de livro de história do colégio. No perfil escrito por José Murilo de Carvalho, no capítulo 12, “Receita de governante”, há um documento que mostra os conselhos que ele dava a sua filha, princesa Isabel, sobre como ela deveria proceder em sua ausência.

Entre as dicas de temas variados, ele escreveu: “Sobre a educação pública: É a principal necessidade do povo brasileiro. (...) A instrução primária deve ser obrigatória, e generalizada por todos os modos.” Simples e direto ao ponto. E isso foi escrito em 1871, num Brasil ainda Império.

Mais adiante, no capítulo 14, “O Bolsinho Imperial”, há mais indícios desse apreço pela educação. O imperador costumava destinar parte da dotação da família imperial – oitocentos contos por ano – para financiar bolsas de estudo no Brasil ou no exterior. Descreve o autor: “Durante o Segundo Reinado, 151 bolsistas obtiveram pensões, 41 deles para estudar no exterior. (...) Os pensionistas no exterior recebiam ajuda para viagem, livros e enxoval. Em contrapartida, tinham de prestar contas trimestrais de seu aproveitamento e assumir o compromisso de regressar ao país no final dos estudos”.

Entre esses bolsistas, o autor cita o pintor Pedro Américo. Claro que muitos dos beneficiados, se não todos eles, eram pessoas bem relacionadas, com bom trânsito na corte. Mas não deixa de ser interessante o desejo de aplicar uma parte do “bolsinho imperial”, na formação de médicos, engenheiros, advogados, músicos e pintores. Ah, importante dizer: uma parte do “bolsinho” ia para esmolas dadas aos pobres do São Cristóvão.

D. Pedro II, o homem que mais tempo ficou no comando do país – 49 anos – já nasceu com o peso de ser imperador sem nunca querer ter sido. Educado para ser nada menos que o herdeiro do Império brasileiro, Carvalho o retrata como um homem austero, que passou a vida tentando se ajustar aos protocolos de um homem público. Mas no fundo, no fundo, queria mesmo era ter sido um estudioso. Quando se viu ameaçado pelo movimento republicano, que lhe tirou do poder em 1889, disse: “Se os brasileiros não me quiserem para seu imperador, irei ser professor”.

Depois de ler o livro, editado pela Companhia das Letras e parte de uma deliciosa coleção de breves biografias, mudei minha imagem sobre aquele senhor de cara séria e barbas longas que me amedrontava nos tempos de escola.

Mas confesso que após a leitura, ficou a pulga atrás da orelha: se desde aqueles tempos imperiais a educação já era vista como prioritária, por que até hoje temos esse péssimo sistema educacional? Talvez porque, como D. Pedro II, muitos de seus sucessores também tinham a educação como prioridade em seu plano de governo, mas não agiam para que ela de fato fosse um direito de todos. Muita teoria, pouca ação. Prova disso é que, mesmo com as melhores das intenções, o imperador deixou como legado um Brasil analfabeto.


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