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Um causo

Uxa Xavier

NA DANÇA

[01/07/2007]

São Paulo - Muitas vezes somos pegos de surpresa com alguns epsódios que nos acontecem. O que vou contar aconteceu comigo há alguns anos atrás. Eu tinha um estúdio de dança e anunciava numa revista, uma publicidade com telefone e endereço. Um dia atendo a um telefonema de uma mãe “aflita” me indagando se eu dava aula de axé para crianças. Levei um susto, isso nunca tinha passado pela minha cabeça e, muito menos, ser procurada para tal ação. Respondi, com delicadeza, que minha área na dança não era axé, expliquei com quais conceitos de corpo e movimento eu trabalhava, mas a mãe, aflita, não estava lá muito atenta ao meu discurso didático pedagógico.

Depois de alguns minutos, ela me interrompe dizendo: “querida o que eu quero saber é se você pode dar uma aula de axé hoje para minha filha de quatro anos, pois ela está num concurso na televisão”. Quase caí da cadeira, me senti um dinossauro diante de tanta objetividade e pressa da “mãe aflita”. Bom, se ela era objetiva, eu também sou, e respondi: “Querida aqui não se dá aula de axé e, na verdade, que eu saiba, nunca vi uma aula de axé para crianças e, caso você saiba onde tem, nem me comunique”. Ela insistiu e disse: “eu pago bem viu?” Respondi: “sinto muito, até logo.” Depois de desligar, fiquei realmente atônita com a situação bizarra. Tipo: “como assim?”

Aula de axé para um concurso...“eu pago bem”? Esse epsódio sempre me vem à cabeça quando discutimos nosso papel como professores e difusores de um conceito de corpo e movimento. Pois a força da mídia é imensa, quase esmagadora diante desses corpinhos inertes em frente ao televisor, me entristece ver mães pais e familiares elogiando seus filhos (as) por saberem fazer direitinho tal coreografia. Penso, no meu silêncio: pequenos repetidores e não imitadores. Imitar é bacana, divertido, pois quando imitamos colocamos nossa alma junto, mas, quando repetimos, estamos reproduzindo um padrão que nos foi imposto. Digo isso especificamente do objeto mídia televisiva. Quantas crianças só tem a TV como lazer e “fonte” de informação? Muitas, mas muitas mesmo. E assim vai e está sendo de geração em geração...

Nós, seres atuantes na cultura, temos também que nos movimentar, aproveitar todas as situações possíveis para colaborar com a despoluição da “fonte”. Vejo que nesse governo as TVs públicas já estão em pauta. Programas infantis e juvenis que tragam fontes da nossa cultura corporal são de imensa valia, imitar o boi, dançar, uma história tão linda, criar uma dança com tecidos lembrando roupas no varal, dançar com o corpo e não com a imagem imposta, isso sim é vida de criança! Isso sim é cultura, pois ela está registrada em nossos corpos, em nossas ações. E, quem sabe um dia, eu não receba um telefonema de uma “mãe aflita” pedindo uma aula de jongo ou composição corporal para seu ou sua filha, não por causa de um concurso, mas sim por que viu na TV e quis fazer.

Uma bela dica de um espetáculo para crianças: Cia Balangandanças com o espetáculo Brincos e quem é a protagonista? A televisão. No Teatro da escola Humboldt todos os finais de semana até setembro. Acesse o site www.humboldt.com.br/teatro e vocês terão todas as informações.

uxaxavier@uol.com.br


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