Infância roubada
Joel Santos Guimarães
BRASILEIROS
[04/07/2007]
São Paulo - Janaína não jogou amarelinha, não brincou de esconde-esconde ou de boneca com as amiguinhas. Seu irmão Edson não rodou pião, não brincou de pique e nem jogou bola-de-gude. Enfim, não exerceram o direito universal de todas as crianças: brincar. A infância de Janaína e Edson foi roubada naquela tarde de 29 de dezembro de 1972. Seu crime: serem filhos de César e Maria Amélia, militantes do PC do B, que lutavam contra a ditadura. No dia anterior, seus pais haviam sido presos pelos agentes do Major Tibiriçá, que 24 horas mais tarde invadiriam a casa em que moravam para seqüestrá-los e prender a tia Criméia.
Todos foram levados para a sede do DOI-Codi paulista. Por estar grávida, Criméia, guerrilheira do Araguaia, havia deixado a região e se abrigava na casa da irmã, Maria Amélia. Janaína, hoje é historiadora, conta que ela e o irmão estavam assistindo ao programa infantil “Vila Sésamo”, quando a campainha tocou. A menina foi atender e o casal na porta que se identificou como sendo da polícia.. Janaína chamou a tia, que, fingindo ser a babá das crianças, foi conversar com os policiais.
Em seu depoimento, anexado ao processo que a família move contra Ustra, Janaína conta que, logo depois, outros homens invadiram a casa e, em seguida, entraram no quarto em que ela estava e a levaram aos berros, gritos e ameaças, juntamente com sua tia e seu irmão para o banco traseiro de uma viatura policial, uma Aero Willis C-14 de cor azul claro. Tia e sobrinhos foram levados para o DOI-Codi.
A chegada ao prédio do DOI-Codi está descrita no depoimento de Criméia. Ela conta que, quando chegou, viu sua irmã e cunhado sendo retirados das salas de tortura. “Ambos tinham equimoses por todo o corpo, estavam sujos e suados. Meu sobrinho, que estava ao meu lado, ao vê-los perguntou: por que vocês estão verdes?”
Em seguida, Criméia lembra que foi levada para uma cela, enquanto os sobrinhos ficaram dias perambulando pelos corredores do aparelho de repressão e foram testemunhas, como afirmam Janaína e o irmão, de gritos de dor dos presos políticos.
Durante os dez dias em que ficaram no DOI-Codi, eles eram levados à noite para uma casa que até hoje os irmãos não sabem dizer onde fica. Janaína e Edson viram os pais saírem das sessões de torturas a que foram submetidos.
Depois de verem Maria Amélia e César saindo da sessão de tortura, tia e sobrinhas se separaram e foram se encontrar somente tempos depois. Os advogados da família Teles argumentam que Édson e Janaina perderam a infância ao ficarem sem os pais durante cinco anos, vivendo com familiares, sem o amor dos país . Do DOI-Codi, ele foram levados para morar na casa de um tio, um delegado de polícia ligado à repressão militar. Ali, os garotos não podiam brincar nem fazer contato com os vizinhos. “A forma como vivíamos na casa desse tio era uma espécie de versão ao contrário do filme “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, pois no filme de Cao Hambúrguer, os filhos dos perseguidos pela ditadura foram acolhidos por pessoas boas”, recorda Janaína.