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Viva Lamarca e a guerrilheira que amava o capitão

Joel dos Santos Guimarães

EM LINHA

[18/06/2007]

São Paulo - Apesar do resmungo dos ex-torturadores, hoje reduzidos a insignificantes generais ou majores de pijama, a história e a sociedade brasileira começam a fazer justiça àquele que, de armas na mão, enfrentou a ditadura em defesa da liberdade do povo brasileiro e em busca de uma sociedade mais justa e, portanto, mais igualitária.

Salve, portanto, Carlos Lamarca e parabéns à Comissão de Anistia que, finalmente concedeu ao capitão da guerrilha a patente de coronel. Durante a reunião, conforme informa o jornal “O Globo”, um militar que estava na sala se levantou e, num gesto simbólico, bateu continência para o ex-capitão. Essa mesma comissão aprovou, ainda, o pagamento de pensão vitalícia para a viúva do guerrilheiro Lamarca, Maria Pavan, no valor de 12.125 reais mensais, o equivalente ao soldo de um general.

Para Cláudia Lamarca, a anistia do pai foi uma lição histórica:
“Este momento é valioso para evitar que excessos sejam novamente cometidos”, disse a filha do coronel Lamarca ao jornal carioca. Cláudia, a mãe e os irmãos ficaram exilados em Cuba, de 1969 a 1979.

Em outras entrevistas a filha do capitão da guerrilha não escondeu o orgulho de ser filha de Carlos Lamarca: "É com muita honra que estou presente nesta reunião para resgatar, mais uma vez, a memória do Lamarca e reconhecer que houve excessos e erros".

Cláudia salientou que seu pai tinha duas opções na sua vida como ser humano. "A primeira era seguir na sua carreira, que com certeza seria de sucesso, e a outra seria lutar por seus ideais. Ele optou em seguir seus ideais".

Viva a Comissão! Viva o coronel Lamarca, herói do povo brasileiro! E viva também a imprensa brasileira! Foi ela quem abriu a estrada que culminou com a anistia ao Capitão Lamarca, sua promoção para coronel e a indenização para os seus familiares. A imprensa, sim! Tão criticada hoje pelo presidente Lula.

Foi o então repórter de “O Globo”, Bernardino Furtado que em uma série de reportagens comprovou que Lamarca não havia morrido numa troca de tiros com tropas do exército, comandadas pelo hoje general de pijama, Nilton Cerqueira. Em 1971, o então major Cerqueira chefiou a “Operação Pajussara”, que culminou com a execução de Lamarca e seus companheiros de luta, José Campos Barreto, o Zequinha, no sertão da Bahia, no município de Brotas, que culminou com a execução de Carlos Lamarca.

Hoje, o algoz de Lamarca, ao saber da decisão da comissão, esbravejou: “traidor, desertor, assaltante e assassino”, reagiu Cerqueira em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”.

Diante disso, é preciso perguntar: quem é covarde? O homem de farda verde oliva que fazia parte de um exército que sustentava um regime que torturava, prendia e matava seus opositores?

Quem é traidor aquele que preferiu abandonar uma carreira promissora em um exército de um regime ditatorial para lutar contra ele ou aquele que nele permaneceu e foi responsável por uma série de desmandos. E quem é assassino?

É preciso ficar claro que, na verdade, Lamarca, conforme provou o laudo pericial do IML baiano, localizado 25 anos depois por Benardino, foi metralhado com cinco tiros pelas costas e depois executado, covardemente, com um tiro de misericórdia no coração por Cerqueira. O militar, ainda saiu gritando descontrolado e histérico: “eu matei, eu matei, alagoano é foda”, conta em seu site o jornalista Emiliano Menezes, autor do livro “Lamarca, o capitão da guerrilha”, em parceria com o jornalista Oldack de Miranda.

Bernardino Furtado descobriu que Charles Pittex, legista do Instituto Nina Rodrigues, da Bahia, havia feito a autópsia do líder do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, Carlos Lamarca. O laudo ficou escondido por 25 anos. Descoberto pelo jornalista em 1996, o documento serviu para estabelecer que Lamarca sucumbiu sem chance de reação. Pittex documentava fartamente as autópsias com fotografias. Registrou, por exemplo, que Lamarca estava subnutrido em conseqüência da precariedade de suas táticas de fuga.

A descoberta do laudo da necropsia do capitão Lamarca jogou por terra também a descrição da morte do guerrilheiro mais temido no início da década de 70, feita pelo então major Nilton Cerqueira. De acordo com a matéria “Lamarca não teria condições de conversar”, também publicada pelo jornal “O Globo”, com ferimentos tão graves, Lamarca teria sobrevida poucos segundos e ainda assim não teria energia vital para travar o diálogo de seis perguntas e cinco respostas com Cerqueira.

O diálogo é descrito por Cerqueira no relatório “Operação Pajussara”, como ficou conhecida a caçada ao capitão na caatinga baiana em setembro de 1971.

“Ou o diálogo ocorreu antes dos sete tiros que foram disparados contra Lamarca ou simplesmente não existiu - disse ao jornal carioca o legista Lamartine Andrade Lima, discípulo de Charles Pittex, após ver o laudo cadavérico”. A matéria foi publica na edição de 7 de julho de 1996 do jornal carioca.

O profissionalismo de Pittex, que não se intimidou com os militares e os torturadores, resultou em um laudo histórico que 25 anos depois localizado pelo jornalista mostrou a verdadeira face da história. Aliás, nem o relatório da “Operação Pajussara” pode omitir que Lamarca não morreu em combate, mas foi “abatido”:

Sobre a morte de Lamarca, o relatório diz “que um homem da equipe de Cerqueira avisou que dois homens estavam deitados debaixo de uma árvore. Sem ser necessário nenhuma ordem, a pequena equipe, a exemplo de seu chefe (NR: Cerqueira), engatilhou suas aramas e procurou aproximar-se dos dois homens deitados”.

Um ruído de galho quebrado acordou Zequinha, que alertou Lamarca sobre a presença dos militares. Zequinha começou a correr e foi metralhado. Lamarca, diz o relatório, começou a correr, carregando um saco, e foi “abatido 15 metros à frente, caindo no solo”.

Ou seja, nem o hoje general de pijama foi capaz, em seu relatório da operação de negar que Lamarca e Zequinha foram executados. A “Operação Pajussara” aconteceu entre 21 de agosto e 17 de setembro de 1971. Seu efetivo era de 212 homens do Exército, Marinha, Aeronáutica, PM da Bahia e do DOPS paulista comandados, pessoalmente, pelo delegado Sérgio Fleury, um dos mais sanguinários torturadores a serviço da ditadura militar brasileira.

Diante dos fatos, a pergunta que não quer calar:
General Cerqueira, quem é o covarde e o assassino nessa história?

A decisão da Comissão de Anistia do governo responde essa pergunta.

Viva Carlos Lamarca!

E viva Yara Iavelberg, a guerrilheira que amava o capitão!

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