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Alexandre Rocha/ANBA
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Delegação brasileira visitou a fábrica de calçados Short na cidade egípcia de Seis de Outubro

Missão à África gera negócios de 35,7 milhões de dólares

Alexandre Rocha

ANBA

[06/06/2007]

Cairo – A missão comercial brasileira ao Norte da África, encerrada ontem (05), deverá render US$ 35,7 milhões em negócios às empresas que participaram nos próximos 12 meses, além de pelo menos US$ 3 milhões em acordos concretizados já durante a viagem. Os números constam de pesquisa feita pela Agência de Promoção das Exportações e Investimentos do Brasil (Apex) com os integrantes da delegação. A Apex organizou a viagem junto com a Câmara de Comércio Árabe Brasileira.

Em 10 dias os brasileiros fizeram 528 contatos empresariais no Marrocos, Tunísia e Egito, durante seminários, rodadas de negócios e visitas técnicas. Mais do que exportações, a missão trouxe oportunidades reais de parcerias entre companhias do Brasil e do mundo árabe. “A missão deixou um rastro de entusiasmo muito forte. Os dados mostram que ela superou seu objetivo, que era principalmente de prospecção”, disse o vice-presidente de marketing da Câmara Árabe, Rubens Hannun, que liderou a delegação.

Em sua avaliação, as empresas brasileiras fizeram uma abordagem abrangente dos três mercados, considerando não só as possibilidades de vendas, mas também de parcerias e investimentos nestas nações. “Pelo lado brasileiro, houve uma visão abrangente das relações internacionais, e, pelo lado árabe, ficou uma boa imagem e o respeito pelo Brasil”, afirmou Hannun.

Um exemplo é o da Usmatic, fabricante de hidrômetros e equipamentos para a irrigação, que saiu do Egito com um acordo industrial quase fechado. O proprietário da empresa, Edmilson Marcondes dos Santos, deixou alinhavado um contrato para transferência de tecnologia para uma indústria local do mesmo ramo. “Só falta definir os valores, mas a idéia é fabricar aqui mini-pivôs com a marca Usmatic”, disse.

Segundo ele, o parceiro egípcio já produz pivôs centrais de irrigação, mas não possuiu o know-how para a fabricação de mini-pivôs, destinados a áreas de até 33 hectares. A idéia é repassar à empresa do país árabe os projetos dos equipamentos, supervisionar a montagem das operações e oferecer treinamento para os operários locais, em troca do pagamento de royalties.

Outros participantes também demonstraram interesse em projetos industriais no Norte da África, como foi o caso do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), a Associação Brasileira da Indústria de Equipamentos Médicos, Odontológicos e Laboratoriais (Abimo) e o consórcio Movexport, que reúne fábricas de móveis da cidade de Ubá, em Minas Gerais. Estas entidades vão encaminhar aos seus associados as possibilidades vislumbradas nesta seara e os benefícios que podem ser conseguidos.

As possibilidades vão desde a instalação de infra-estrutura de armazenagem, passando pela formação de joint-ventures e até investimentos diretos na construção de fábricas. “Ocorreu um ganho fundamental de qualidade das relações, com oportunidades de negócios de médio e longo prazo”, observou Hannun. “E a presença de empresas de vários setores realmente interessadas na região mostrou que o Brasil, sendo respeitado e conhecido, tem muito mais a oferecer do que commodities”, declarou.

Participaram da missão empresas e entidades dos ramos de alimentos, insumos para a indústria alimentícia, bebidas, produtos agrícolas, frutas, material de construção, equipamentos médicos e odontológicos, ferramentas, equipamentos para irrigação, borrachas e resinas sintéticas, móveis e componentes para calçados e acessórios.

Mercados

No Marrocos, primeira etapa da viagem, foram realizados 207 contatos comerciais com oportunidades de negócios de US$ 6,2 milhões para os próximos 12 meses. Na Tunísia, segunda escala, ocorreram 147 encontros que resultaram em possibilidades de contratos de US$ 19,2 milhões. No Egito, a parada final, foram 174 contatos e uma estimativa de negócios de US$ 10,5 milhões.

“Isto mostra que não existem mercados ruins na região, pois não tem sequer um país árabe que não tenha uma boa relação com o Brasil. Esta reação, em termos de oportunidades de negócios, é ao Brasil em si”, afirmou Hannun. Segundo ele, a viagem foi importante também para conhecer melhor as diferenças entre os países no que diz respeito ao comportamento do mercado, aos impostos cobrados, aos incentivos concedidos para investimento, ao nível de industrialização, entre outras informações. “O que vai permitir que a gente faça um diagnóstico mais preciso de como continuar este trabalho”, acrescentou.

Uma das empresas que criaram fortes oportunidades de negócios foi a Singular Trading, que deixou encaminhada a venda de 12,5 mil toneladas de açúcar cristal, o que pode render quase US$ 6,9 milhões em exportações. Segundo o representante da empresa, Cristiano Vivaldi, foram encaminhadas também vendas de chocolates, biscoitos, balas, refresco em pó e houve demanda ainda por suco de laranja.

A maioria das empresas deixou o Norte da África com negócios encaminhados, ou pelo menos bons contatos para serem desenvolvidos. Participaram também a Associação Brasileira das Indústrias de Componentes para Couros, Calçados e Artefatos (Assintecal), a Link Worldwide, que representa oito companhias deste mesmo setor, a Braseco, que vende material de construção, máquinas agrícolas e outros produtos, a Latinex, que vende alimentos e bebidas, a Mabel, indústria de biscoitos, a Nitriflex, fábrica de borrachas sintéticas, a PMAN, que produz insumos para panificação, a Predilecta Alimentos, de doces, condimentos e polpas, a Starret, de ferramentas, e a WK, de material de construção.

Relações institucionais

Do ponto de vista institucional as relações entre governos e entidades destes países com o Brasil também saíram fortalecidas. No Marrocos, Hannun e outros integrantes da missão tiveram encontros na Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Casablanca, que quer organizar uma missão ao Brasil, na agência de notícias, Maghreb Arabe Presse (MAP), que tem um acordo de cooperação com a ANBA, na Ofec, empresa que organiza feiras em Casablanca, e na Confederação Geral das Empresas do Marrocos (CGM).

Na Tunísia, ocorreram reuniões com o ministro do Comércio e Artesanato, Mondher Zenaïdi, com a secretária de estado para as Américas, Saïda Chtiouiu, no Departamento de Privatizações do País, na Câmara de Comércio e Indústria do Centro, em Sousse, no hospital Sahlou, também em Sousse, no Museu do Barto, em Túnis e com representantes da União Tunisiana da Indústria, Comércio e Agricultura (Utica).

Já n o Egito ocorreram encontros na Associação de Empresários Egípcios, na agência de Notícias Mena, onde foi iniciado mais um acordo de cooperação com a ANBA, na Associação de Investidores de Seis de Outubro e numa empresa local que organiza feiras de negócios. “Foram abertas portas importantes”, afirmou Hannun.

1,5 mil indústrias

Como última atividade, integrantes da missão visitaram ontem fábricas localizadas na cidade de Seis de Outubro, a 50 quilômetros ao sul do Cairo, capital do Egito. O município, de vocação totalmente industrial, concentra 1,5 mil plantas de diversos ramos em seis zonas industriais. "Isto representa de 10% a 15% da indústria egípcia", disse Mohamed Khamis, secretário-geral da Associação de Investidores de Seis de Outubro, entidade que reúne cerca de 600 empresas locais.

Uma das companhias visitadas foi a Juhayna, fabricante de laticínios e sucos que tem três fábricas na cidade. Sua linha de produção é totalmente automatizada e ela processa 500 toneladas de leite e 500 toneladas de sucos por dia, sendo que cerca de 20% é exportado para países como Líbia, Jordânia, Estados Unidos e nações européias.

Trabalhando em três turnos seis dias por semana, e às vezes sete, a capacidade de produção já está em seu limite e a empresa está investindo na ampliação. "Precisamos fazer uma ampliação, teremos duas novas fábricas no período de um ano", disse o diretor-geral da empresa, o dinamarquês Nelson Thomsen. Segundo ele, as novas operações devem gerar entre 300 e 400 novos empregos, que vão se somar aos cerca de 2 mil já existentes.

A maior parte do abastecimento de leite e frutas vem de produtores egípcios mesmo, mas a empresa também importa algumas frutas, leite em pó, estabilizantes e embalagens. Ela produz uma linha grande de iogurtes e sucos, além de leite longa vida e outros lacticínios.

A empresa, segundo Thomsen, existe há 28 anos e introduziu no Egito o processo de produção do leite longa vida. Ela tem sua própria rede de distribuição. A grande maioria dos funcionários trabalha nas áreas administrativa e de vendas. Um de seus clientes é a rede McDonald’s, para quem fornece misturas para sorvetes. Seu faturamento anual gira em torno de 1 bilhão de libras egípcias (US$ 175,4 milhões).

Calçados

Outra fábrica visitada foi a Short, que produz sapatos e compra alguns componentes do Brasil, como couro reciclado. A empresa é bastante conhecida no mercado local, mas também exporta para a Itália, França, Arábia Saudita e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A fábrica tem capacidade para produzir até 2 mil pares por dia, mas hoje está fabricando cerca de 500. Segundo o proprietário da empresa, Ahmed Short, é porque é baixa estação atualmente no Egito.

De acordo com Short, sua companhia tem 150 funcionários. Além da fábrica, ele tem quatro lojas próprias e outros 10 pontos-de-venda de terceiros comercializam quase que exclusivamente produtos seus. Como no Brasil, a concorrência dos produtos chineses é forte. "Conseguimos nos manter porque a marca é forte no Egito, as pessoas procuram por ela", disse o empresário, que abriu a companhia há 15 anos.

Custos

Além de alimentos e calçados, Seis de Outubro reúne os setores automotivo, de confecções, químico, de material de construção, de equipamentos médicos, de cosméticos, de tapetes, de cigarros, entre outros. As indústrias ocupam uma área de 400 mil metros quadrados.

Segundo Mohamed Khamis, o custo para instalação de uma fábrica no local é baixo, são US$ 20 por metro quadrado de terreno e US$ 100 por metro quadrado de área construída. Além disso, a taxa de abastecimento de água é de US$ 0,20 por metro cúbico e o custo da eletricidade é de US$ 0,04 por kilowatt/hora. O governo egípcio cobra 20% de imposto sobre o lucro e 10% sobre as vendas, como o ICMS brasileiro. Para a importação, as taxas variam de 2% a 20%.

Com cerca de um milhão de pessoas, Seis de Outubro tem quatro universidades. "Existem 26 cidades como esta no Egito, mas Seis de Outubro é a maior", declarou Khamis.


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