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O que os olhos vêem nem sempre o coração deve sentir

Uxa Xavier

NA DANÇA

[01/06/2007]

São Paulo - Quem dança deve saber como o corpo funciona, seus mecanismos ósseos, sua estrutura muscular complexa e, como a riqueza, e o ainda enigmático sistema neurológico funciona. Todas essas informações são de infinita importância para os profissionais da dança, afinal, somente conhecendo nosso instrumento de trabalho, poderemos ampliar e explorar mais nosso conhecimento. Foi assim que fui ver a exposição "O Corpo Humano", em São Paulo.

Entrar na mostra com o espírito investigador é uma boa forma de nos defendermos dessa revelação que é como somos por dentro: literalmente. Abstrair as formas e relacioná-las como elementos da natureza também é um belo jeito de nos vermos.
A beleza de nossa estrutura muscular a inserção com tendões tudo tão perfeito, tão lógico que nem parece que somos assim, afinal vendo essa maravilha pensamos como podemos ter dores no copo se ele é tão perfeito? Mas também sabemos que nossos corpos, nossos movimentos são produtos de nosso meio. Pois é....

Os rins tão belos e delicados que parecem uma jóia marinha, mas não, são só os rins mesmo: se maltratados provocam-nos dores terríveis. Essa é a natureza, poderosa, simples e ainda temida por nós.

Caminhando por entre seres humanos tratados com composições químicas que lhes deu a eternidade de seus corpos tudo causa um estranhamento incrível, poderia ser eu.... Difícil vê-las como peças científicas, mas é incrível perceber e constatar como o ser humano também é curioso por natureza. E como consegue desenvolver técnicas tão refinadas que podem transformar o invisível em visível.

Senti variações de emoções: medo, encantamento, esclarecimento, enjôo, repulsa. Busquei e encontrei respostas para encaixes tamanhos e formas de ossos, órgãos e musculaturas que nenhum livro de anatomia tinha me dado até então. Tudo tão forte e verdadeiro. Senti tristeza de ver crianças tão pequenas entrando em contato com uma verdade tão crua, pois o corpo ainda é (e deve continuar) uma fonte incrível de imagens belas e oníricas.

Nossas escápulas (antigas omoplatas) se parecem com asas. Nesse contato vemos como ela é realmente, pode até se parecer, mas já não será, pois a força da imagem fica grudada em nossa memória para sempre. Conheço muitas pessoas que se recusaram a ver, entendo, e muito. Mas eu tive que ver, era preciso. Foi interessante, saí de lá tonta, pensando nas pessoas, ou melhor, nos corpos que lá estavam e lá ficariam e depois ainda viajariam por muitos outros lugares como peças. E como peças serão eternizadas. Quem aguentar veja, se não aguentar nem explique....

uxaxavier@uol.com.br


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