Na rua Augusta
Cláudia Abreu
COSTURA FINA
[04/05/2007]
São Paulo - Meu avô completou 80 anos em abril e eu quis presenteá-lo com um chapéu. A procura não foi longa, já tinha um nome na cabeça quando pensava no chapéu ideal, a Plas. Uma loja simpática perdida no sobe e desce da rua Augusta. A vitrine é em madeira e vidro, data de 50 anos atrás. Sobreviveu às intempéries econômicas do país, coisa rara entre os estabelecimentos desse ramo em São Paulo, essa cidade que muda a cada dia, ainda mais quando o assunto é consumo. Lojas abrem e fecham o tempo todo na nossa Gotham City.
Pois bem, entrei na Plas e o efeito foi incrível. Maurice, o dono, é de um carisma impressionante, cativante. Tem um carinho pelos clientes, um sorriso fresco e um abraço de avô. Nós nos conhecemos em 2005, quando fui à Plas pela primeira vez com meu marido, procurávamos um chapéu para os tempos difíceis que vinham pela frente. Vincenzo, aos 40 anos, tinha detectado um câncer e começaria a fazer quimioterapia. O medicamento faria cair os cabelos e Vincenzo, italiano prevenido e vaidoso, se antecipou: comprou um belo modelo Panamá e uma boina de algodão. Foram úteis, estão pendurados no meu armário.
Na época, Maurice se comoveu com nossa história, desejou-nos sorte, vendeu-nos os dois acessórios e presenteou-nos com mais dois, um para mim e outro para minha filha, Sofia. Vincenzo, colunista da Folha de S.Paulo, se encantou e fez logo uma coluna sobre Maurice. Ele nos contou dos bons tempos da moda que enfeitava as cabeças, disse que já enviou chapéus – via correio - para clientes no Acre. Também já vendeu suas boinas para o exterior. Falou ainda da época da alta costura. Ele fez vestidos de noivas e de madrinhas, vestiu personalidades da sociedade paulista. Saímos de lá felizes com as boas histórias de Maurice e esperançosos. Todos com chapéu na cabeça.
Voltei na Plas, na semana passada, com uma certa tristeza, confesso, mas, como disse, não imaginava comprar o acessório em outro lugar. Maurice nos recebeu – a mim e a Sofia – com o mesmo afeto e com os olhos cheios de lágrimas. Abraçou-me forte e logo começou a mostrar os chapéus que poderiam deixar o meu avô elegante. Apresentou-me a poucos modelos, mas certeiros. A escolha ficou difícil, tive a ajuda de Sofia para, por fim, escolher um à la Indiana Jones, pelo menos na cor. Maurice ficou satisfeito com a nossa escolha. Embrulhou numa caixa bonita e me presenteou novamente – mais um chapéu para a minha coleção. Sofia também ganhou, um modelo azul para “combinar com os olhos”, como observou Maurice.
Saí de lá pensando na moda, no acessório, na vida e nas pessoas. Maurice é uma dessas pessoas especiais, tem um carinho pelo que faz, pela gente. Não mudou a loja de lugar quando a rua Augusta entrou em decadência, persistiu. Não mudou de ramo quando as pessoas passaram a circular sem chapéus, insistiu. Continua com sua loja - hoje tem a ajuda dos filhos para tocar o negócio -, recebe as pessoas, sugere o modelo mais adequado, acerta o acessório nas cabeças mais desavisadas. Por vezes, reclama, mas não é com angústia, só lamenta a falta de charme, o descaso com a memória da cidade e com a rua Augusta, a ida precoce de pessoas especiais... Eu também Maurice, eu também lamento.
PS. Meu avô ficou feliz com o chapéu.
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